A campanha Junho Vermelho reforça, neste mês, a importância da doação regular de sangue para garantir o abastecimento dos hemocentros em todo o país. Embora o Brasil tenha registrado aumento no número de doações nos últimos anos, os estoques ainda permanecem abaixo do ideal, comprometendo tanto atendimentos de urgência quanto cirurgias programadas.
Segundo o Ministério da Saúde, foram coletadas 3,31 milhões de bolsas de sangue em 2024, um crescimento de 1,9% em comparação com 2023, quando o total chegou a 3,24 milhões. Dados preliminares de 2025 apontavam 2,71 milhões de coletas entre janeiro e outubro.
Apesar da evolução, o percentual de doadores ainda está distante da recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta que ao menos 3% da população doe sangue regularmente. No Brasil, a taxa registrada em 2024 foi de apenas 1,6%.
Outro desafio é a predominância dos chamados doadores de reposição, que representam cerca de 38% das doações realizadas no país. São pessoas que costumam doar apenas quando um familiar ou amigo necessita de transfusão, sem manter o hábito da doação voluntária.
O enfermeiro especialista em trauma, urgência e terapia intensiva e professor da Faminas, Daniel Fernandes, explica que manter os estoques abastecidos é fundamental porque situações graves exigem transfusões imediatas, sem tempo para mobilizar novos doadores.
Além dos atendimentos de emergência, a escassez de sangue também afeta pacientes que aguardam procedimentos eletivos. Segundo o especialista, quando os estoques ficam reduzidos, as cirurgias programadas costumam ser adiadas, aumentando as filas do Sistema Único de Saúde (SUS) e podendo agravar quadros clínicos que estavam estabilizados.
As transfusões não são utilizadas apenas em vítimas de acidentes. O sangue também é indispensável no tratamento de queimaduras, hemorragias, doenças hematológicas, sangramentos digestivos e diversas enfermidades crônicas que evoluem com perda de componentes sanguíneos.
Critérios para doar
Com o objetivo de ampliar o número de doadores, o Ministério da Saúde flexibilizou alguns critérios. Atualmente, adolescentes a partir de 16 anos podem doar mediante autorização dos responsáveis, enquanto a idade máxima passou para 69 anos, desde que sejam atendidos os requisitos de saúde.
Também é necessário pesar pelo menos 50 quilos, estar alimentado, ter dormido no mínimo seis horas nas últimas 24 horas e apresentar boas condições de saúde.
Ainda assim, algumas situações impedem temporária ou definitivamente a doação. Entre elas estão uso de determinados medicamentos, vacinação recente, anemia, febre, gravidez, procedimentos odontológicos recentes, tatuagens e piercings recentes, além de viagens para regiões com doenças endêmicas.
A hematologista e professora da Afya Ipatinga, Marita de Novais Costa Salles, explica que algumas condições tornam a pessoa definitivamente inapta, como determinadas doenças cardíacas e histórico de cirurgia bariátrica, devido ao maior risco de deficiência nutricional e anemia. Há também restrições relacionadas ao histórico de permanência em regiões da Europa durante o período da doença da vaca louca.
A especialista destaca ainda que muitos mitos dificultam a criação da cultura da doação voluntária. Segundo ela, os critérios adotados existem justamente para preservar a saúde do doador, sem oferecer riscos durante o procedimento.
Inverno reduz número de doadores
De acordo com Daniel Fernandes, outro fator que impacta os estoques é o inverno. O aumento dos casos de gripe e outras doenças respiratórias impede temporariamente muitas pessoas de doar sangue.
Quem apresenta sintomas gripais leves deve aguardar sete dias após a recuperação para realizar a doação. Nos casos mais intensos, o intervalo recomendado é de 15 dias.
Em Minas Gerais, a situação segue preocupante. A Fundação Hemominas informa que os estoques dos tipos sanguíneos O+, O-, A+ e A- estão em nível crítico, enquanto o tipo B- permanece em estado de alerta. Os demais tipos também são necessários para manter o abastecimento da rede.
O agendamento para doação pode ser realizado pelo aplicativo MGApp ou pelo portal do Governo de Minas Gerais.