Medicamento passa a ser opção para pacientes que ainda apresentam células tumorais após tratamento inicial e cirurgia; terapia busca aumentar as chances de cura
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma nova indicação para o medicamento Enhertu (trastuzumabe deruxtecana), ampliando o uso da terapia contra o câncer de mama HER2-positivo no Brasil.
A partir da decisão, o medicamento poderá ser utilizado mais cedo no tratamento de pacientes adultos com câncer de mama HER2-positivo em estágio inicial que ainda apresentam sinais da doença mesmo após passarem por quimioterapia, terapia-alvo e cirurgia.
O grupo é chamado de doença invasiva residual, situação em que ainda são encontradas células cancerígenas no tecido retirado durante a cirurgia, apesar dos tratamentos realizados antes do procedimento para tentar reduzir o tumor.
Segundo a Anvisa, esses pacientes apresentam maior risco de retorno da doença. Estudos indicam que até 25% das pessoas com doença residual podem apresentar recidiva em até 10 anos.
Tratamento busca aumentar chances de cura
O oncologista Stephen Stefani explica que o medicamento já era utilizado no Brasil em outros cenários do câncer de mama, principalmente em casos avançados. A novidade é que agora a terapia poderá ser aplicada em uma fase mais precoce da doença, quando o objetivo ainda é aumentar as chances de cura.
“Quando o paciente faz o tratamento antes da cirurgia, o tumor reduz, mas ainda é encontrada doença no material retirado. Nesse cenário, acrescentamos um tratamento complementar para aumentar a possibilidade de cura”, explica o especialista.
A aprovação foi baseada em um estudo clínico que apontou uma redução de 53% no risco de recorrência invasiva ou morte entre pacientes que utilizaram o medicamento nesse contexto.
Como funciona o medicamento
O Enhertu pertence a uma classe chamada conjugado anticorpo-droga, uma tecnologia que combina uma terapia direcionada com uma substância capaz de destruir células tumorais.
O medicamento identifica o receptor HER2, uma proteína presente em maior quantidade em alguns tumores de mama, e leva uma substância quimioterápica diretamente até as células cancerígenas.
Segundo especialistas, o mecanismo permite uma ação mais precisa do que a quimioterapia tradicional, buscando preservar mais células saudáveis.
A terapia também apresenta o chamado efeito espectador, em que a substância liberada pode atingir células próximas ao tumor, mesmo aquelas que possuem menor quantidade da proteína HER2.
Medicamento ainda não está disponível no SUS
Apesar da aprovação da Anvisa, o medicamento ainda não faz parte da lista de tratamentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A autorização permite que a terapia seja utilizada no país, mas a inclusão na rede pública depende de uma avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que analisa critérios como eficácia, segurança, custo e impacto financeiro.
Câncer de mama HER2-positivo
O câncer de mama é o tipo de câncer mais diagnosticado no mundo e uma das principais causas de morte por câncer entre mulheres. No Brasil, são estimados mais de 70 mil novos casos por ano.
O subtipo HER2-positivo representa entre 10% e 19% dos tumores de mama. Durante anos, esse tipo foi considerado mais agressivo, mas o desenvolvimento de terapias específicas contra a proteína HER2 mudou o cenário de tratamento.
A nova aprovação acompanha uma tendência da oncologia moderna: levar tratamentos mais precisos para fases iniciais da doença, buscando não apenas controlar o câncer, mas reduzir as chances de que ele volte.