Levantamento com mais de 91 mil colaboradores aponta que 62,7% dos diagnosticados dormem menos de 6h por noite e um terço apresenta sinais de sofrimento mental
Mais da metade dos trabalhadores brasileiros diagnosticados com ansiedade não recebe qualquer tipo de tratamento. O dado, revelado por um levantamento inédito da plataforma de saúde corporativa Axenya, realizado com mais de 91 mil colaboradores de empresas, mostra que o sofrimento mental continua sem acompanhamento mesmo quando já foi identificado.
A pesquisa aponta que 51,6% dos profissionais diagnosticados com ansiedade não recebem atendimento especializado. Além disso, 12,2% apresentam sinais de depressão moderada ou grave e 62,7% dormem menos de seis horas por noite. No total, um em cada três trabalhadores apresenta algum sinal clínico relevante de sofrimento mental.
O estudo utilizou o PHQ-9, instrumento clínico validado internacionalmente e amplamente empregado por psiquiatras para rastreamento de sintomas depressivos.
“Os resultados implicam que não é falta de consciência, mas sim de acesso, de continuidade e de um sistema que feche essa conta. A empresa que não enxerga isso está pagando o custo sem nenhum dos benefícios do cuidado”, afirma Mariano García-Valiño, fundador e CEO da Axenya.
Sofrimento normalizado
Embora a discussão sobre saúde mental esteja cada vez mais presente no ambiente corporativo, muitos trabalhadores ainda demoram anos para procurar ajuda. Segundo o psiquiatra Bruno Brandão, um dos principais obstáculos é a normalização dos sintomas.
“Existe muito preconceito em relação à saúde mental. Muita gente acredita que a ansiedade é um traço da personalidade ou que precisa aguentar sozinho, que se falar vai ser criticada ou julgada”, afirma.
O especialista explica que sinais clássicos do transtorno acabam sendo incorporados à rotina sem despertar preocupação.
“Preocupação em excesso, pensamento acelerado, dormir pouco… a pessoa normaliza: ‘Eu durmo pouco porque sou mais produtivo’. Irritabilidade vira ‘exigência’. E isso acaba se transformando em um padrão de funcionamento que a pessoa considera normal”, analisa.
De acordo com Brandão, pesquisas mostram que o intervalo entre o surgimento dos primeiros sintomas e a busca por tratamento pode chegar a uma década. Muitos pacientes só procuram atendimento aos 40 ou 45 anos, frequentemente já convivendo com sintomas físicos persistentes, como dores de cabeça, refluxo e problemas gastrointestinais.
Sono irregular
Os dados da pesquisa mostram que a privação de sono é uma realidade para a maioria dos trabalhadores com ansiedade. Para o psiquiatra, o problema vai além do cansaço e pode acelerar o surgimento de outros transtornos mentais.
“O sono regula todo o funcionamento do nosso corpo. Quando a pessoa dorme pouco de forma crônica, há um aumento da reatividade emocional e uma redução da atividade cognitiva. Memória, concentração e velocidade de raciocínio diminuem”, explica.
Segundo ele, o sistema límbico, responsável pelas emoções, permanece hiperativado, enquanto as áreas cerebrais ligadas ao raciocínio e ao controle emocional perdem eficiência. O resultado é um aumento da irritabilidade, da preocupação excessiva e da dificuldade de concentração.
Com o passar do tempo, o estresse crônico, impulsionado pela hiperconectividade, pelas cobranças constantes e pela sensação permanente de urgência, pode favorecer o desenvolvimento da depressão, alerta Brandão. “É um ciclo. O estresse leva à depressão e à insônia; a insônia piora o estresse e a depressão. Um retroalimenta o outro. Precisamos tratar os três fatores de forma integrada”.
Impacto profissional
Os efeitos da ansiedade e da depressão não tratadas ultrapassam a esfera individual. Os transtornos afetam a produtividade, a tomada de decisões, a criatividade e os relacionamentos profissionais. Também aumentam o absenteísmo (indicador de Recursos Humanos que mede a frequência de ausências, atrasos ou saídas antecipadas de um colaborador durante sua jornada de trabalho) e elevam o risco de doenças físicas.
“Não tratar quadros neuropsiquiátricos reflete também na questão econômica daquela empresa”, destaca Brandão.
Os desafios se tornam ainda maiores entre os trabalhadores mais jovens. Um levantamento realizado com 11.600 colaboradores pelo pesquisador Gustavo Hohendorff mostra que a Geração Z concentra alguns dos indicadores mais preocupantes de bem-estar emocional.
Entre as mulheres da geração, 72% relatam emoções negativas na maior parte dos dias. Já 58% dos jovens adultos afirmam sentir pouca ou nenhuma sensação de propósito no trabalho.
“A Geração Z chegou ao mercado de trabalho com mais vocabulário sobre saúde mental do que qualquer geração anterior e, paradoxalmente, com menos ferramentas práticas para cuidar dela. Isso não é fraqueza. É um sintoma de um sistema que ainda não aprendeu a tratar o bem-estar como prioridade antes de virar crise”, afirma Mariano García-Valiño.
Ajuda profissional
Para o psiquiatra Bruno Brandão, a ansiedade não deve ser encarada como uma característica da personalidade ou uma condição que precisa ser suportada em silêncio. “Entender que a ansiedade não é sinal de fraqueza, não é falta de Deus, de força ou de vontade. Não é ‘jeito de ser’. É um quadro tratável, como qualquer outra doença. Quanto mais cedo buscar tratamento, melhor o prognóstico”, afirma.
Segundo ele, procurar ajuda profissional é uma forma de autocuidado e pode transformar significativamente a qualidade de vida. “Muitos pacientes, depois de anos, dizem: ‘Por que não busquei antes? Minha vida virou outra’. A ansiedade tem tratamento. Quanto mais cedo a pessoa procura ajuda, maiores são as chances de recuperar qualidade de vida e evitar que o sofrimento se torne crônico”, finaliza o Brandão.
Fonte: O Tempo.