CLIMA EXTREMO

El Niño avança e Uberaba prepara transposição, novos poços e plano para estiagem

Rio Uberaba ainda opera acima do nível mínimo, mas Codau reforçará sistema diante da previsão de calor intenso e atraso das chuvas

Larissa Prata
Publicado em 27/07/2026 às 19:10
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Com a confirmação do El Niño e a previsão de que o fenômeno alcance intensidade muito forte no fim deste ano, Uberaba prepara reforços no abastecimento e amplia as ações para enfrentar estiagem, calor, baixa umidade e queimadas. Embora não haja previsão de racionamento neste momento, a Codau programa a montagem do sistema de transposição do Rio Claro, conclui dois novos poços profundos e aguarda a homologação do plano que definirá as regras para eventuais fechamentos de reservatórios.

O cenário representa uma evolução das previsões acompanhadas pelo Jornal da Manhã desde maio. Naquele mês, modelos internacionais já apontavam a possibilidade de formação de um El Niño intenso, com risco de prolongamento da estiagem em Uberaba. Na ocasião, a climatologista Wanda Prata alertou que o fenômeno poderia estar entre os mais fortes das últimas décadas, embora ainda houvesse incerteza sobre sua formação e intensidade.

Em junho, com o avanço dos modelos, a climatologista Alcione Wagner apontou que os efeitos começariam a ser sentidos gradualmente a partir de julho, com maior intensidade entre o último trimestre de 2026 e o início de 2027. Para Uberaba e o Triângulo Mineiro, as principais previsões eram de atraso no retorno das chuvas, ondas de calor mais intensas, baixa umidade e precipitações irregulares, com possibilidade de temporais e granizo quando a estação chuvosa começar.

A especialista também apontou novembro a janeiro como o período de maior atenção, com risco de seca e ondas de calor, enquanto a primavera pode ser marcada por baixa umidade e chuvas irregulares.

A previsão mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), divulgada em 9 de julho, confirmou que o El Niño está em curso e deve se fortalecer até o fim do ano. A agência calcula em 81% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, condição que o colocaria entre os maiores eventos registrados desde 1950. A NOAA ressalta, porém, que mesmo episódios muito fortes não produzem os efeitos considerados típicos em todas as regiões. A expressão “super El Niño” é popularmente utilizada, mas a classificação técnica adotada pela agência é “El Niño muito forte”.

Na última quinta-feira (23), o Rio Uberaba apresentava vazão de 1.970 litros por segundo, acima dos 1.200 litros por segundo considerados o mínimo necessário para garantir o abastecimento da cidade. Segundo a Codau, os reservatórios permanecem em patamar normal e ainda não há previsão de racionamento.

A autarquia informou que acompanha diariamente a vazão do manancial e o consumo de água. A principal estrutura prevista para o período seco é o sistema de transposição do Rio Claro, que deverá ser montado em meados de agosto. O equipamento poderá ser acionado gradualmente aos primeiros sinais de estresse hídrico, acrescentando até 500 litros por segundo à vazão do Rio Uberaba.

Dois novos poços profundos também estão em fase final de execução junto aos Centros de Reservação 15 e 16. Quando entrarem em operação, deverão produzir juntos aproximadamente 120 litros de água por segundo.

Atualmente, Uberaba possui cinco poços profundos em funcionamento, com capacidade conjunta próxima de 230 litros por segundo. Com os novos sistemas, a produção complementar por água subterrânea poderá alcançar cerca de 350 litros por segundo.

Plano definirá fechamento de reservatórios

O fechamento temporário de reservatórios também está entre as medidas que poderão ser adotadas durante o período seco. As regras constarão no Plano de Contingenciamento de Abastecimento de Água, que está em fase final de avaliação pela Agência Reguladora Intermunicipal de Saneamento Básico de Minas Gerais (Arisb-MG).

Segundo a Codau, o documento deverá estabelecer as diretrizes das manobras, incluindo os períodos de fechamento de acordo com os índices de reservação. A expectativa é de que o plano seja homologado nos próximos dias e divulgado posteriormente.

Em junho, o JM já havia mostrado que a Codau pretendia colocar o novo contingenciamento em prática entre o fim de julho e o início de agosto. A proposta altera os níveis dos reservatórios utilizados para determinar quando os fechamentos emergenciais devem começar.

Enquanto as regras não são divulgadas, a Companhia orienta a população a economizar água e manter reservação própria suficiente nos imóveis. A recomendação é de uma caixa-d’água de mil litros para uma residência com cinco moradores, de forma que as atividades essenciais possam ser mantidas durante eventuais fechamentos.

Defesa Civil e Sagri reforçam planejamento para enfrentar a estiagem

A Defesa Civil informou que começou a estruturar a Operação Estiagem antes do encerramento do último período chuvoso. Com a confirmação da intensidade prevista para o El Niño, o órgão afirma que está ajustando e ampliando as estratégias já em andamento.

Os principais cenários acompanhados são a redução prolongada das chuvas, a elevação das temperaturas, a queda da umidade, o aumento do risco de queimadas e os efeitos sobre a qualidade do ar e as atividades produtivas.

Até agora, foram realizadas 156 vistorias e ações de monitoramento relacionadas ao período de estiagem. O trabalho reúne Defesa Civil, Departamento de Posturas, Corpo de Bombeiros, Guarda Civil Municipal e Departamento de Trânsito.

No campo, a Secretaria Municipal de Agronegócio informou que o avanço do El Niño ainda não provocou mudanças no calendário de plantio ou no planejamento da próxima safra. A principal preocupação é com a soja, cujo plantio deve começar em outubro, justamente quando o fenômeno pode estar próximo do pico de intensidade.

Um atraso das chuvas pode comprometer o início da safra e empurrar o calendário da segunda safra. Nesse cenário, parte dos produtores pode substituir o milho pelo sorgo, cultura mais resistente à falta de água, mas a adaptação não elimina as perdas econômicas.

A Secretaria de Agronegócio afirmou que já existem produtores que perderam parte do plantio por causa da estiagem e precisaram replantar, aumentando os custos. A pasta, entretanto, não detalhou quantas propriedades foram afetadas, quais culturas tiveram perdas nem a extensão das áreas atingidas. Segundo o órgão, o cenário mais grave previsto com o El Niño ainda não se confirmou.

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