PASSAGEM NAS ALTURAS

Combustível mais caro pressiona aviação e mexe em preços de passagens às vésperas das férias

Setor aéreo reduz pela metade a expectativa de lucro para 2026 diante da disparada do querosene de aviação e dos efeitos do conflito no Oriente Médio

Publicado em 22/06/2026 às 20:02
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Com a aproximação das férias de julho, o setor aéreo enfrenta um momento de contrastes. De um lado, a alta dos combustíveis e a tensão no Oriente Médio, marcada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, forçaram as companhias a cortar quase pela metade suas projeções de crescimento para o ano. De outro, a procura por voos segue aquecida, com ocupação em nível recorde e disposição dos passageiros para gastar mais.

O peso maior nas contas das empresas vem do querosene de aviação. Segundo dados apresentados pela Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata, na sigla em inglês), o gasto global do setor com combustível deve subir de US$ 252 bilhões em 2025 para US$ 350 bilhões em 2026. Com isso, o insumo passará a representar 31,4% dos custos operacionais, ante 25,4% no ano anterior.

A country director da Iata no Brasil, Simone Tcherniakovsky, resume o momento como uma combinação de "fragilidade e resiliência". Para ela, a fragilidade estrutural é evidente. "As margens estreitas e retornos abaixo do custo de capital significam que choques de lucratividade corroem a eficiência do capital rapidamente", afirmou.

No cenário global, o lucro líquido esperado para 2026 foi revisado de cerca de US$ 41 bilhões para US$ 23 bilhões, com a margem caindo de 3,9% para 2,0%. O ganho por passageiro recuou para US$ 4,50, metade dos US$ 9,10 registrados em 2025.

De acordo com a executiva, os fatores que explicam a revisão são a forte alta nos preços do combustível, que subiram quase 70%, e as interrupções operacionais provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

Na América Latina, região que inclui o Brasil, o movimento é o mesmo. A previsão de lucro líquido caiu para US$ 1,2 bilhão em 2026, com margem de 2,1%, abaixo dos US$ 1,9 bilhão e 3,8% de 2025.

Apesar das pressões, a demanda segue positiva. O indicador de passageiros-quilômetros pagos (RPK, na sigla em inglês), que mede a procura real, deve desacelerar de 7,2% para 5,0%. "As perspectivas apontam para uma desaceleração gradual em vez de uma contração abrupta, com a curva de demanda permanecendo positiva no geral", avalia Simone.

As taxas de ocupação estão em patamar recorde de 84%. Além disso, pesquisa da Iata indica que 49% dos passageiros pretendem gastar mais em viagens nos próximos 12 meses, e 41% planejam viajar com mais frequência.

A recuperação nos mercados mais afetados, segundo a diretora, deve começar pelo reajuste de preços e, depois, pelo aumento de volume. Diante do choque nos combustíveis, as empresas têm buscado recompor o faturamento por meio das tarifas.

O desequilíbrio entre receitas e despesas também preocupa. Os custos operacionais cresceram 13%, ritmo superior ao avanço de 9,4% das receitas, o que reduz pela metade a lucratividade do setor.

Os problemas estruturais se agravaram. O retorno sobre o capital investido, de 4,3%, segue abaixo do custo de capital. Há ainda restrições na cadeia de suprimentos, com carteira de pedidos de 18,1 mil aeronaves em maio de 2026, taxas de arrendamento em níveis recordes e custos elevados de manutenção em frotas mais antigas.

O ambiente macroeconômico também perdeu força, com desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) global e inflação em alta. "Para as companhias aéreas latino-americanas, especificamente, a flexibilidade limitada do balanço patrimonial, os custos de captação mais altos e a depreciação cambial amplificam essas pressões", afirmou a executiva.

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