Minas Gerais continua sendo o estado com maior número de empregadores incluídos na chamada “lista suja” do trabalho análogo à escravidão no país. A atualização mais recente, divulgada pelo governo federal em abril, reúne 613 registros e aponta 36 novos casos no estado. Em Uberaba, três ocorrências passaram a integrar o cadastro nos últimos anos, incluindo um caso de exploração em residência registrado em janeiro deste ano.
Apesar desse cenário, o município ainda não conta com uma estrutura para acolher trabalhadores resgatados que não possam retornar para casa. A ausência dessa rede foi destacada pela auditora fiscal do Trabalho do Ministério do Trabalho, Raquel Baldo, em entrevista ao JM News, na Rádio JM.
Segundo ela, quando uma vítima de trabalho escravo doméstico não pode voltar para a família ou para a cidade de origem, é necessário encaminhá-la para uma casa de apoio em Uberlândia, mantida com recursos destinados pelo Ministério Público do Trabalho.
Dos três registros de Uberaba na lista suja, dois envolvem propriedades rurais e um ocorreu dentro de uma residência. Os casos são referentes a um sítio, onde um trabalhador foi resgatado em dezembro de 2024; a uma fazenda, com dois trabalhadores resgatados em setembro de 2025; e a uma residência urbana, incluída na atualização deste ano após o resgate de dois empregados domésticos em janeiro de 2026.
Os registros mostram que a exploração ocorre tanto no meio rural quanto dentro das casas, onde as vítimas costumam permanecer isoladas e longe do olhar da sociedade.
“O perfil dessas pessoas é muito peculiar. Muitas passaram anos em isolamento, foram privadas da convivência social e, em alguns casos, sequer aprenderam a ler e escrever. Elas precisam de acompanhamento psicológico e de todo um processo de reinserção social”, explica a auditora.
Os casos registrados em Uberaba fazem parte de uma realidade presente em toda a região. Em fevereiro deste ano, o Ministério Público Federal denunciou dois homens acusados de manter sete trabalhadores em condições degradantes em uma carvoaria na zona rural de Tapira.
Segundo a investigação, as vítimas foram atraídas com promessas de emprego formal, mas acabaram submetidas a jornadas exaustivas, isolamento geográfico e trabalho sem registro em carteira.
Para Raquel Baldo, combater esse tipo de exploração depende tanto da fiscalização quanto da conscientização da população. As denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100, pelo Sistema Ipê ou diretamente nas unidades do Ministério do Trabalho.
“Precisamos tratar esses trabalhadores com dignidade. Ainda encontramos situações de assédio, discriminação e exploração que são surreais”, afirma.