Levantamento do Tribunal de Contas mostra que município teve quase 340 mil pessoas diretamente impactadas entre 2015 e 2025; estiagem responde pela maior parte dos registros
Uberaba é o município mineiro com o maior número de pessoas diretamente afetadas por desastres naturais na última década. O dado faz parte de levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), com base em informações do Atlas Digital de Desastres no Brasil, que aponta 339,99 mil pessoas atingidas no município entre 2015 e 2025. A maior parte desse total está relacionada aos efeitos da estiagem e da seca, que marcaram os últimos anos e provocaram sucessivos decretos de emergência.
Segundo a publicação do TCE-MG, Uberaba aparece à frente de Januária, com 284 mil pessoas afetadas, e Minas Novas, com 183 mil. O estudo integra auditoria operacional sobre a gestão estadual de riscos de desastres e mostra que Minas Gerais reúne 283 municípios em situação de vulnerabilidade, o equivalente a 33,17% das 853 cidades do Estado.
Os dados do Atlas Digital detalham que Uberaba registrou oito desastres reconhecidos no período analisado. Foram três climatológicos, quatro hidrológicos e um classificado em outras categorias. Entre as ocorrências estão dois episódios de chuvas intensas, duas enxurradas, dois eventos de estiagem e seca, um incêndio florestal e uma ocorrência de onda de calor associada à baixa umidade do ar.
(Fonte/Atlas digital de Desastres no Brasil)
Embora enchentes e enxurradas tenham provocado desabrigados e danos imediatos, é a seca que explica praticamente todo o volume de pessoas afetadas em Uberaba. Dos 339,99 mil atingidos contabilizados pelo Atlas, 337.839 estão relacionados aos episódios de estiagem e seca registrados no município.
O levantamento também contabiliza 276 pessoas desalojadas ou desabrigadas e 1.873 feridos e enfermos ao longo da década. Os maiores registros de desabrigados ocorreram em abril de 2015, quando 176 pessoas tiveram de deixar suas casas após enxurradas, e em outubro de 2024, quando outras 100 pessoas foram desabrigadas em consequência das chuvas intensas.
Além dos impactos sociais, os prejuízos econômicos também chamam atenção. Conforme o Atlas Digital de Desastres, Uberaba contabilizou R$ 199 milhões em danos materiais em 2024 e outros R$ 6,11 milhões em 2022. O setor privado mais afetado foi a agricultura, com perdas estimadas em R$ 91,9 milhões, reflexo direto da escassez hídrica que atingiu a produção rural.
Na esfera pública, os prejuízos somaram R$ 208,8 mil em 2022 e R$ 98,8 mil em 2024. A maior despesa registrada foi com serviços de limpeza urbana e remoção de resíduos, que responderam por R$ 208,8 mil em custos ao poder público.
O histórico recente ajuda a explicar os números apresentados pelo TCE-MG. Em 2015, um forte veranico logo no início do ano provocou perdas estimadas entre 30% e 50% nas lavouras da região, levando a Prefeitura a decretar situação de emergência. Meses depois, a redução da vazão do Rio Uberaba exigiu a utilização emergencial das águas do Rio Claro para garantir o abastecimento da cidade.
A crise hídrica voltou a preocupar em 2021. A combinação entre estiagem prolongada e aumento do consumo reduziu significativamente a vazão do Rio Uberaba, obrigando a Companhia Operacional de Desenvolvimento, Saneamento e Ações Urbanas (Codau) a antecipar a transposição do Rio Claro e adotar manobras operacionais nos centros de reservação para manter o fornecimento de água.
Em 2024, Uberaba enfrentou cerca de cinco meses sem chuvas significativas, entre maio e setembro. O nível crítico do Rio Uberaba levou o município a decretar situação de emergência no abastecimento de água, estabelecer multas para desperdício e obter o reconhecimento federal da situação de emergência. No mesmo período, as altas temperaturas, agravadas pelos efeitos do El Niño, também motivaram decreto de emergência por 180 dias para prevenção e combate aos incêndios florestais.
A escassez de água voltou a se repetir em 2025. A queda da vazão do principal manancial do município levou a Prefeitura a decretar novamente emergência hídrica, com restrições ao consumo e aplicação de multas para desperdício de água tratada.
O relatório do TCE-MG utiliza o caso de Minas Gerais para defender uma mudança na forma como o poder público enfrenta os desastres naturais. Segundo a auditoria, o Estado ainda atua predominantemente de maneira reativa, concentrando esforços após a ocorrência das tragédias, em vez de investir de forma permanente em prevenção, planejamento urbano e adaptação às mudanças climáticas.
Entre 2015 e 2025, Minas Gerais registrou 4.906 protocolos de desastres, média de 1,34 ocorrência por dia. Nesse período, foram contabilizadas 278 mortes, 377,6 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas, 23 mil feridos e enfermos e 9,19 milhões de pessoas diretamente afetadas. Conforme a publicação do Tribunal de Contas, a ausência de sistemas integrados de monitoramento e de maior articulação entre os órgãos públicos dificulta a gestão dos riscos e reduz a eficiência das ações preventivas, cenário que ganha ainda mais relevância diante dos números registrados em Uberaba.