Alterações nos mecanismos de fome e saciedade ajudam a explicar obesidade, diz médico
O cenário reforça uma discussão que especialistas consideram urgente (Foto/Divulgação)
Os números da obesidade continuam crescendo no Brasil e já acendem um alerta também em Uberaba. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) mostram que 27,74% das crianças de até 5 anos acompanhadas pela rede pública de saúde do município apresentam sobrepeso, risco de sobrepeso, ou obesidade. O cenário reforça uma discussão que especialistas consideram urgente: a obesidade deve ser encarada como uma doença crônica e não como uma simples consequência de hábitos inadequados.
Em entrevista ao Pingo do J, o médico nutrólogo Pedro Pereira afirmou que o preconceito ainda é um dos maiores obstáculos para o enfrentamento da obesidade e para a busca por tratamento. “A população precisa entender que a obesidade é uma doença crônica. Assim como a hipertensão e o colesterol alto, ela exige acompanhamento e controle a longo prazo. Não é simplesmente uma questão de querer ou não emagrecer”, afirma.
Os dados nacionais ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Atualmente, 25,7% dos adultos brasileiros são obesos e 62,6% estão acima do peso. Entre 2006 e 2024, a prevalência da obesidade cresceu 118% no país.
Segundo Pedro Pereira, a visão de que basta reduzir a alimentação para resolver o problema desconsidera fatores biológicos importantes que influenciam o ganho de peso. “Hoje sabemos que existem alterações hormonais envolvidas. Há pacientes que apresentam desregulação dos mecanismos de fome e saciedade. Às vezes a pessoa já está alimentada, mas continua sentindo necessidade de comer. Não se trata apenas de comportamento”, explica.
O especialista destaca que a obesidade é uma doença multifatorial, resultado da interação entre fatores genéticos, metabólicos, hormonais, emocionais e ambientais. “Temos hormônios responsáveis por controlar a fome e a saciedade. Em muitos pacientes com obesidade existe uma descompensação desses mecanismos. Por isso é tão importante entender que não estamos falando apenas de falta de controle alimentar”, ressalta.
Além dos impactos físicos, a doença também afeta diretamente a saúde mental. De acordo com o médico, muitos pacientes convivem com sentimento de culpa, frustração e exclusão social após sucessivas tentativas frustradas de emagrecimento. “Pacientes chegam chorando. Dizem que já tentaram de tudo. Existe uma exclusão social muito grande. Infelizmente, o obeso ainda é muito malvisto pela sociedade”, relata.
Para Pedro Pereira, a pressão estética e os padrões de beleza amplamente divulgados nas redes sociais contribuem para agravar esse sofrimento. “Hoje existe uma pressão muito forte relacionada à imagem. Como profissionais de saúde, precisamos tratar doenças e promover qualidade de vida, não apenas perseguir padrões estéticos”, pontua.
O nutrólogo reforça que o sucesso do tratamento não deve ser medido apenas pela balança, mas pela melhora da saúde e da qualidade de vida do paciente. “Não existe um peso ideal para todo mundo. O importante é que a pessoa tenha qualidade de vida, controle das doenças associadas e esteja satisfeita com sua condição de saúde. Cada paciente tem uma realidade e objetivos diferentes”, explica.
A situação ganha ainda mais relevância diante dos números registrados em Uberaba. Em 2025, das 8.670 crianças de até 5 anos acompanhadas pelo SUS, 1.566 apresentavam risco de sobrepeso, 527 estavam com sobrepeso e 312 já eram classificadas como obesas.
Para o especialista, o excesso de peso na infância merece atenção especial porque tende a acompanhar o indivíduo ao longo da vida e aumenta o risco de diversas doenças. “A obesidade precisa ser levada a sério desde cedo. Ela está associada a diversas doenças e pode comprometer a qualidade de vida da criança e do adulto que ela se tornará”, destaca.
Embora o avanço de medicamentos tenha ampliado as possibilidades terapêuticas para alguns pacientes, Pedro Pereira ressalta que não existe solução rápida para a doença. “O tratamento envolve mudanças no estilo de vida. Alimentação adequada, atividade física, acompanhamento médico e, muitas vezes, suporte psicológico. Não existe milagre”, afirma.
Para o nutrólogo, a obesidade precisa ser tratada como uma questão de saúde pública e não apenas como uma preocupação estética. “Precisamos acabar com a ideia de que a pessoa obesa está nessa condição porque não se esforça. A obesidade é uma doença complexa, que envolve fatores biológicos, emocionais e sociais. Quanto mais cedo houver diagnóstico e tratamento, melhores serão os resultados”, conclui.
Enquanto os índices seguem em crescimento entre crianças e adultos, especialistas defendem que combater o preconceito é tão importante quanto incentivar hábitos saudáveis, já que reconhecer a obesidade como doença é o primeiro passo para enfrentá-la de forma efetiva.