O verbo incubar possui múltiplas aplicações. No universo dos negócios, está ligado ao planejamento e ao desenvolvimento de ideias potencialmente lucrativas. No agronegócio, pode ser associado ao ato de semear. Unindo os dois cenários, surgem as startups voltadas ao agro. Mas incubar uma startup nesse setor é viável?
No ano passado, o número de startups voltadas ao agronegócio ultrapassou 2 mil, conforme o Radar Agtech 2025, produzido pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens. Uberaba é um CEP naturalmente propício para esse movimento, por ser um polo agropecuário, sede da maior associação zebuína do mundo, a ABCZ, além de abrigar grandes agroindústrias. Contudo, é preciso atender a alguns requisitos antes de iniciar o processo de incubação.
O Centro de Inovação, Tecnologia e Empreendedorismo (CITE) é a incubadora da Fazu (Faculdades Associadas de Uberaba). Braço educacional da ABCZ, a instituição é referência no agronegócio. “O CITE avalia principalmente se a startup possui potencial real de desenvolvimento, aderência ao agro e viabilidade de evolução dentro do ambiente de incubação”, explica o coordenador Gustavo Stein.
Administrador e especialista em Inovação Tecnológica, Stein ressalta que o primeiro ponto observado é se a ideia da startup resolve um problema real. Em seguida, são avaliados critérios como o grau de inovação da solução, especialmente quando aplicada ao agronegócio; o potencial de mercado, considerando público-alvo, escalabilidade e geração de receita; a viabilidade técnica e operacional da proposta; e o perfil da equipe empreendedora.
“Após a aprovação, o primeiro passo é realizar uma reunião de alinhamento e diagnóstico inicial com a equipe do CITE. Nessa etapa, são levantadas informações sobre o estágio atual da startup, o modelo de negócios, os desafios, as necessidades técnicas, o perfil da equipe, o nível de maturidade da solução e os objetivos para o ciclo de incubação.”
A partir dessas informações, o CITE estrutura um plano de acompanhamento específico para o desenvolvimento do empreendimento que pode incluir mentorias, definição de metas, cronograma de evolução, validação do modelo de negócio, apoio técnico, conexões institucionais e direcionamento para desenvolvimento do MVP (Produto Mínimo Viável), pitch, mercado ou captação.
Jonatas e Gustavo trabalhando no desenvolvimento da plataforma AgroQuery (Foto/Divulgação)
Jonatas Artagnan é aluno do último período de Agrocomputação da Fazu e, paralelamente à graduação, está incubando uma startup no CITE. A solução desenvolvida pelo jovem é a AgroQuery, uma plataforma de consulta a informações técnicas sobre produtos fitossanitários (defensivos agrícolas), por meio de um sistema avançado de busca que permite ao usuário utilizar linguagem natural e comandos de voz para localizar produtos, acessar informações mesmo offline em campo e gerar receituários agronômicos.
“A ideia surgiu ao notar a ineficiência das atuais plataformas de consulta, que se limitam a filtros complexos, interfaces confusas, bulas desatualizadas, excesso de anúncios e dependência de conexão com a internet. Hoje, o projeto está em fase de testes na Play Store e de aquisição de novos usuários”, explica.
Gustavo e Gabriella Freire, da Fazu, juntamente com a equipe da Aurica — Pedro, Caio e Vinícius (Foto/Divulgação)
Outra startup incubada pelo CITE é a Aurica, que já comercializa serviços e soluções. Voltada à implantação de práticas de ESG (Ambiental, Social e Governança), a empresa foi criada por Pedro Morello e Vinícius Santana e, atualmente, conta também com Caio Travain na direção.
“A ideia surgiu em uma conversa entre amigos, porque estávamos insatisfeitos com o que fazíamos. Então, resolvemos empreender e criar algo novo. Optamos por atuar na área de gestão de riscos socioambientais porque já tínhamos experiência nesse segmento; nossas carreiras sempre estiveram ligadas a ele. O que foi novo para nós foi a entrada no agro. Nunca tínhamos trabalhado no agronegócio, mas mergulhamos de cabeça nesse universo e, após quatro anos de atuação, não queremos sair dele de jeito nenhum”, conta Pedro.
O sócio-fundador explica que o principal objetivo da Aurica é realizar a gestão de riscos e auxiliar toda a cadeia do agronegócio, para que produtores e agroindústrias aprimorem suas práticas, ampliem o acesso a mercados e crédito e, consequentemente, obtenham melhor desempenho.
Atualmente, a Aurica possui uma área de consultoria, onde já fatura, na qual oferece treinamentos, workshops, cursos, elaboração de relatórios de sustentabilidade e inventários de gases de efeito estufa. Na área de tecnologia, a empresa desenvolve duas soluções que estão em fase final de testes: uma plataforma para monitoramento de fornecedores da cadeia do leite e de outras cadeias produtivas, e outra voltada ao acompanhamento e monitoramento de processos industriais. A plataforma de monitoramento da Aurica também está sendo implantada no setor de Leite da Fazenda Escola da Fazu.