Especialista com 30 anos de RH explica por que valores pessoais pesam mais que currículo na hora da contratação
A discussão ganhou ainda mais relevância com a ampliação das exigências relacionadas aos riscos psicossociais no ambiente laboral (Foto/Reprodução)
A crescente preocupação com a saúde mental no ambiente corporativo e a busca por profissionais comprometidos e alinhados aos valores das empresas têm transformado as relações de trabalho no Brasil. Especialistas apontam que o investimento no bem-estar emocional dos colaboradores deixou de ser apenas uma questão humanitária para se tornar também uma estratégia de produtividade e sustentabilidade organizacional. Ao mesmo tempo, recrutadores afirmam que fatores comportamentais, como responsabilidade, pontualidade e inteligência emocional, têm ganhado peso nos processos seletivos.
A discussão ganhou ainda mais relevância com a ampliação das exigências relacionadas aos riscos psicossociais no ambiente laboral. Em entrevista à Rádio JM, a profissional de Departamento Pessoal e Recursos Humanos Débora Rezende, que atua há cerca de três décadas na área, afirmou que as empresas precisam compreender que ações preventivas representam ganhos tanto para os trabalhadores quanto para os empregadores. "É muito melhor você ser preventivo do que pagar algo que já está trazendo prejuízo. Traz prejuízo para as empresas, para a Previdência e para o próprio trabalhador", afirmou.
Segundo Débora, muitas organizações já possuem diagnósticos e levantamentos sobre as condições de trabalho, mas ainda falham na implementação de medidas práticas voltadas ao cuidado com a saúde mental. Na avaliação da especialista, transformar relatórios em ações concretas pode contribuir para a redução de afastamentos, melhorar o clima organizacional e aumentar a produtividade das equipes.
A humanização das relações profissionais também aparece como um dos principais desafios do mercado atual. Para a especialista, o trabalhador precisa ser reconhecido como indivíduo, e não apenas pelos resultados que entrega. "As pessoas têm que entender que estão sendo vistas pelo que elas são e não apenas pelo que representam para a empresa em relação aos números. Isso faz toda a diferença", destacou. Ela acrescenta que práticas simples, como ouvir colaboradores, reconhecer desempenhos e promover ambientes mais acolhedores, podem gerar impactos positivos tanto na saúde emocional quanto nos resultados financeiros.
No momento da contratação, entretanto, os aspectos comportamentais continuam sendo decisivos. Embora a formação técnica seja importante, recrutadores têm valorizado cada vez mais características relacionadas ao comprometimento e aos valores pessoais dos candidatos. De acordo com Débora, a pontualidade é um dos primeiros indicadores observados durante um processo seletivo e pode influenciar diretamente a decisão final.
A especialista ressalta que conhecimentos técnicos podem ser desenvolvidos ao longo da trajetória profissional, mas princípios e valores são mais difíceis de serem ensinados. "Processos você ensina, você treina. Agora, caráter, valores e aquilo que a pessoa traz consigo, isso você não consegue ensinar", afirmou. Ela também alertou que informações falsas em currículos costumam ser facilmente identificadas, seja por meio de documentos digitais, seja pela própria condução da entrevista.
Para especialistas da área de gestão de pessoas, o futuro das relações de trabalho passa justamente pelo equilíbrio entre produtividade e cuidado humano. Nesse cenário, empresas que investem em saúde mental, desenvolvimento pessoal e processos seletivos mais humanizados tendem não apenas a reduzir custos relacionados a afastamentos e rotatividade, mas também a construir ambientes mais saudáveis, produtivos e sustentáveis.