Os brinquedos de que eu mais gostava eram barquinhos
Os brinquedos de que eu mais gostava eram barquinhos. Mais do que carrinhos ou soldados em miniatura, as pequenas embarcações exerciam sobre mim o fascínio que me acompanharia por toda a vida.
Ali pelos trinta e poucos anos, meu desejo tinha apenas mudado de tamanho e meu sonho de criança, virou realidade de adulto.
Porém, mais importante do que a conquista de ter um barco, foi a decepção de constatar que a pequena lancha não podia me dar a felicidade que eu esperava dela. De algum modo, sonhar com aquele prazer era melhor.
Foi uma das mais enriquecedoras lições que a vida pôde me oferecer.
Imagino que nada que o dinheiro possa comprar seja capaz de nos dar felicidade duradoura sozinho, seja lá o que for. A boa sensação de se receber um presente precisa ser constantemente renovada por outro. Isso não acontece com um sentimento.
Não sou capaz de imaginar o amor de um filho a seus pais – ou a exata recíproca – necessitar de renovação. Eis aí o porquê de tantas pessoas declararem ter mais prazer dando um presente do que recebendo algum, buscando ver felizes os seus amados.
Aqui estamos novamente às vésperas de mais um Natal. Correria, preocupação em fazer o dinheiro esticar para que ninguém fique sem o seu presente. A mesa da ceia também tem que ser farta.
Não que eu seja contra os presentes. Gosto muito deles, na ida e na vinda.
Penso, porém, que eles devam trazer consigo significâncias, tem de haver neles algo que transporte um sentimento que toque o coração de quem recebe em troca da boa expectativa de quem o dá.
Tirar de um presente o quanto possível o seu valor material e carregá-lo na mesma medida de emoção é tudo o que ele precisa para ter cumprido o seu mais sublime papel, fiel àquilo que deve ser o espírito de Natal.
É preciso zelar por uma atmosfera serena e voltada, sobretudo, para a aproximação da família, cada vez mais considerada como artigo de luxo.
O segundo domingo dos meses de maio, de Dia das Mães, tornou-se Dia de Comprar Presentes para as Mães; o dia 12 de outubro é o Dia de Comprar Brinquedos. Que tal fazermos diferente neste Natal? Ao invés de vivermos o Dia de Comprar Presentes para Todo Mundo, por que não acrescentamos aos nossos presentes algo mais?
Dê presentes. Emocione-se com seus queridos, coma e celebre a rainha das festas com bom humor e esperança.
Mas não deixe de abraçar e beijar seus filhos, além de dar a eles os presentes desejados.
Diga também aos seus irmãos, pais, cunhados, primos e sobrinhos exatamente o que cada um deles significa na sua vida, antes, durante ou depois da ceia, mas diga.
Ao contrário do barco, isso lhe dará um prazer maior do que aquele que você esperava, não perecível.
Podemos nos esquecer do que ganhamos no Natal do ano passado ou do retrasado. Mas ficam impressas nos nossos corações as emoções vividas, para sempre vívidas.
Esta me parece ser uma excelente maneira de se homenagear o verdadeiro dono da festa.
(*) Escritor