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Uberaba, 11 de julho de 2020 -

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Lídia Prata
Wellington Cardoso Ramos FALANDO SÉRIO 14/02/2020


François Ramos - Redator Interino

É sério?
“Eta povo chato!” Essa expressão traduz o sentimento que emerge todos os dias, em milhares de brasileiros, ao se manifestar uma opinião. As pessoas estão a cada dia mais intolerantes. O século XXI e as redes sociais trouxeram consigo uma massa de “doutores” em diversas áreas do conhecimento, que dominam qualquer assunto sem nunca ter sequer lido a respeito. E pior, defendem de forma arbitrária suas posições sem analisar de forma racional o conteúdo exposto por aqueles que criticam com a ferocidade de um espartano em tempos de guerra.

Triste

A afirmação que acabo de fazer, com certeza, já despertou o ódio de algum “militante” da discórdia acima de tudo. Já devem estar brotando problematizações que acusam o colunista de preconceituoso, arrogante, fascista e, quem sabe, até xenófobo. Afinal, como posso afirmar que um espartano é feroz na guerra? A verdade é que não se pode mais ter uma opinião sem deflagrar conflito.

Cultura do exagero
Tem predominado, infelizmente, uma cultura que tende a transformar quem não gosta de abóbora em um “aboborafóbico”. E eu que pensava que ninguém era obrigado a gostar das mesmas coisas que os outros, bastava respeitar a percepção daqueles que são diferentes.

Pois é!
Mas não. Para evitar se envolver em briga, você é obrigado a gostar de tudo o que é considerado, naquele momento, politicamente correto. Para respeitar as diferenças, o que se percebe é que não se pode pensar diferente. Se pensa, não pode falar. Jamais.

Hein?
É isso mesmo. Espaços em que outrora se poderia exercer a liberdade de expressão num contexto democrático, como as escolas e as redes sociais, por exemplo, se transformaram em campos de batalha dominados por imperativos ideológicos que determinam a impossibilidade de discordar de qualquer coisa. Caso seja resistência (antes de tomar pedrada, preciso registrar que não é um paralelo à expressão da ala considerada de esquerda), o julgamento será duro!

Cegueira?
Se o indivíduo votou em determinado candidato, tanto faz se de centro, esquerda, direita ou ambidestro, jamais poderá discordar de qualquer ação que o político pratique ou defenda. Caso contrário, lá vem a patrulha da “Santa Inquisição Democrática Digital” promover o linchamento do mais novo traidor, que pode ser chamado de fascista ou de comunista, depende qual o grupo em que as autoridades do Facebook irão enquadrá-lo.

Titanic
Direita, esquerda e centro, se é que existe realmente essa divisão no Brasil, tem o mesmo dever constitucional quando estão no poder: trabalhar pela efetivação do interesse público. Contudo, os inquisidores consideram que este somente se efetiva quando está conforme a cartilha do “seu malvado favorito” (outra explicação necessária ou muitos param de ler: não é referência a conservadores, mas a uma massa que se sujeita, sem pensar, às vontades de seus líderes, independente de qual seja o partido).

Será?
Sim, hoje é preciso tomar cuidado com tudo o que se fala. Nem mesmo justificativas e explicações prévias impedem “militantes” de “a” ou “b” de distorcerem registros e adequá-los aos seus interesses ou aos de seu grupo.

Floco de neve
A militância voraz não se limita à esfera federal ou à causa político-partidária. Está presente em tudo. Um amigo uberabense tirou uma fotografia com um pedinte deitado na porta da agência central dos Correios (não mostrou rostos) e alertou para o fato de que Uberaba está repleta de situações tristes como essa. Destacou a quantidade de mendigos perto do Mercado Municipal e de semáforos das principais vias de nossa cidade. Minha nossa! O tribunal digital imediatamente se posicionou.

Negativo
Embora não se visse ali qualquer atribuição de culpa ou crítica dirigida a uma pessoa ou instituição específica, os ataques começaram. Alguns o acusaram de falar mal das lideranças locais, outros de ser um privilegiado que não sabe o que é passar fome. A falta de amor e de solidariedade também foi característica que os “juízes virtuais” lhe atribuíram. E, claro, também apareceu político que se aproveitou da oportunidade para registrar indignação com aquele posicionamento que afrontava e desprezava minorias. O que havia no seu texto? Nada demais. Apenas um convite à reflexão e um pedido de socorro: a sociedade precisa reagir!

Renovação

Uma reação que todos cobram, mas apenas dos políticos. Poucos querem se comprometer com a mudança. Aliás, renovação virou uma questão de ordem nos discursos presentes, desde rodas de boteco a redes sociais. Entretanto, para os vorazes defensores da moralidade pública, “ninguém presta”. Todo nome conhecido é sinônimo de incompetente e corrupto. Os novos são inexpressivos, aventureiros e oportunistas. Pois é! Então, vamos votar em quem? Jesus Cristo?

Xô, Satanás!
Parece que também não pode. Afinal, já tem grupo promovendo a “Marcha do Satanás” em Belo Horizonte. Evento acontece em 29 de março e será um ato contra os padrões colocados pelas religiões, o que leva à perseguição de quem é diferente. Mas esse mesmo grupo ideológico, em outros lugares do mundo, protesta contra o cristianismo e promove processos judiciais contra monumentos com símbolos cristãos em áreas públicas, nomes de ruas ligados à religião, oração em escolas, entre outras manifestações. Ué... mas o objetivo não é o respeito pelas diferenças?

Complexo
As coisas andam realmente muito difíceis. Para respeitar um que não gosta de rezar, a grande maioria deve se abster de fazê-lo em público, pois isso seria ofensivo. Mas a mesma militância que pede rigor no combate a essa forma de “desrespeito” encena o aborto de Cristo na porta de templos católicos. É muita controvérsia que se estabelece na definição de padrões contemporâneos do que é adequado ou não.

Comunista ou satanista?
Nessa onda de imposição de novos padrões sociais, reflexões como essa transformam o colunista em um adorador de satã, por ter falado dessa manifestação que acontecerá na capital mineira e assim despertado interesse de “inocentes”, ou de fascista, porque afronta a luta pela efetivação de um Estado laico. Vou confessar: está difícil escrever e opinar sobre qualquer coisa. Mas isso é justamente o que os “donos do poder” querem. Quando a imprensa se prende a grilhões sociais e a liberdade de informação desaparece, ocorre a facilitação de regimes autoritários, livres de qualquer censura.

Liberdade
Para finalizar, me aproprio das palavras de Fernando Sabino para lembrar que “[...] democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um”. Será o atual caminho aquele que devemos percorrer para conquistar a tão sonhada felicidade e o progresso social? Com certeza, precisamos pensar mais a esse respeito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ.
O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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