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Uberaba, 05 de dezembro de 2021 -

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Lídia Prata
Joanna Prata AGRO EM DIA 11/11/2021


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A solução da crise climática pode estar no agronegócio; Triângulo Mineiro é referência na produção de energia renovável

A coluna Agro em Dia desta semana vai apresentar alguns dados e esclarecer alguns mitos sobre o elo do agronegócio com o meio ambiente. Então deixo o convite para a leitura da coluna até o final e vamos entender afinal como é essa relação. Principalmente porque dia 31 de outubro iniciou a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática de 2021, a COP26. No centro das pressões globais para assegurar a sustentabilidade da sua produção está o Agronegócio. O Brasil terá protagonismo na apresentação das ações desenvolvidas no campo para cumprir as metas estabelecidas no Acordo de Paris em 2015. E muita coisa que o Brasil vai mostrar para o mundo, principalmente sobre fonte de energia renováveis saiu daqui, do Triângulo Mineiro.

Boas práticas
Não precisamos ir muito longe para ver as ações e os investimentos do setor. A Embrapa, juntamente com o Sistema FAEMG/SENAR/INAES realiza na região de Uberaba o programa FIP Paisagens Rurais. São mais de 1.800 produtores da pecuária de corte e leite do Triângulo Mineiro que estão tendo suas pastagens recuperadas na bacia do Rio Tejuco. A expectativa é recuperar 45 mil hectares de pastagens e 5 mil hectares de florestas. O setor de produção de carne tem investido em recuperar pastagens degradadas. Primeiramente, sem nenhuma hipocrisia, por ser mais barato. Para se desmatar de forma legal, não se gasta menos de R$ 5.000 por hectare. Já as recuperações de pastagem partem de R$ 3.000 a depender do nível de degradação do solo -- importante lembrar que é o custo por hectare. Então, fazendo uma conta por baixo, levando em consideração que as áreas aqui no Triângulo Mineiro estejam em baixa degradação, estamos falando aqui de um investimento de no mínimo R$ 135 milhões. Se fosse desmatar uma área de igual tamanho o investimento seria de R$ 225 milhões, então qual opção você escolheria?

O Brasil possui pouco mais de 100 milhões de hectares de pastos com alguma degradação, conforme cálculos da Scot Consultoria em estudo encomendado pelo WWF, pela Tropical Forest Alliance (TFA) e pela Fundação Solidariedad.

O Brasil possui o maior rebanho bovino comercial do mundo, com 218,23 milhões de cabeças (IBGE, 2016) e aproximadamente 190 milhões de hectares ocupados por pastagens (ANUALPEC, 2013), possuindo um grande potencial para aumentar a sua produção sem a necessidade de abertura de novas áreas. “O setor da pecuária tem visto como a grande oportunidade de produzir mais sem impactar é a reforma de pastagens já estabelecidas há décadas. Somos o maior país com área de produção em forma de pasto”, explicou João Bento, gerente de Marketing da ABCZ.

A Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), inclusive, teve uma participação bem importante na COP 26 nesta segunda-feira (8). A entidade apresentou o Programa Integra Zebu em uma palestra para autoridades mundiais. A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Emater-MG, empresa vinculada à Secretaria de Estado Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Embrapa, Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e o Ministério da Agricultura. O contrato para a execução do projeto foi assinado em fevereiro, na sede da ABCZ, em Uberaba. O projeto tem como base o sistema de integração Lavoura-Pecuária (ILP) ou sistemas de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Dessa forma, a mesma propriedade pode ter uma lavoura de milho, uma floresta plantada de eucalipto e pastagem para gado, por exemplo. “É um modelo que é aparentemente simples, mas que demanda uma mudança de perspectiva do produtor. É um trabalho gradual que nós temos percebido um crescimento exponencial destas técnicas”, disse João Bento. Por meio do ILP ou ILPF se recupera áreas degradadas, aumenta a produtividade e melhora a eficiência dos insumos utilizados na produção.

Sequestro de carbono
Curiosamente, o agronegócio é a única atividade produtiva que tem capacidade de praticar o sequestro de carbono enquanto produz. O sequestro de carbono é a expressão utilizada para definir o processo de retirada de gás carbônico (CO2) da atmosfera para transformá-lo em oxigênio. As plantas fazem esse processo durante a fotossíntese. Ou seja, lavouras, pastagens e florestas plantadas têm o “poder” de “sequestrar” o gás carbônico, causador das mudanças climáticas.

O cultivo de florestas, como de eucalipto, é apontado como meio eficiente no sequestro de carbono em razão do acúmulo deste na madeira e aumento do estoque no solo. Existem diversas especulações sobre os gases liberados pelos bovinos. Conforme João Bento, os bovinos são ruminantes o que causa um tipo de “arroto” nos bovinos. “A Embrapa já tem um estudo consolidado e o balanço da emissão com o do sequestro de carbono da pastagem é muito positivo", explicou João Bento.

Energia renovável
Os combustíveis fósseis são os maiores responsáveis pela liberação de carbono. São eles o carvão, o gás natural e os derivados de petróleo (gasolina, óleo diesel, óleos combustíveis, entre outros). A queima desses combustíveis significa a emissão de gases causadores do efeito estufa (GEE) para a atmosfera. Uberaba é a maior produtora de cana de açúcar do Brasil. Cana essa que se transforma em Etanol, biocombustível renovável que prospera não só no Triângulo Mineiro, mas também nas adjacências no norte do estado de São Paulo e sul de Goiás.

Mas afinal o Etanol emite o tal dióxido de carbono, o CO2 do efeito estufa, igual a gasolina? Sim, o etanol também emite o CO2 , porém com duas diferenças em relação à gasolina: primeiro, o volume de CO2 emitido pelo etanol é muito menor, pois seu teor de carbono é também muito menor; em segundo lugar, as emissões de CO2 do etanol são compensadas pela cana-de-açúcar que, ao se desenvolver no campo, absorve da atmosfera esse mesmo dióxido de carbono que é emitido pelo escapamento do automóvel, pois o seu crescimento é a partir do processo de fotossíntese, que precisa do CO2 que está na atmosfera; em terceiro, o processo de produção, transformar petróleo em gasolina libera muito mais CO2 do que transformar cana em álcool.
Inclusive o ministro Joaquim Leite afirmou que irá defender o uso do etanol durante a COP 26.

A cana-de-açúcar vai muito além do etanol. O bagaço se torna energia elétrica, que abastece as usinas e quando há excedente é vendido no mercado de energia. Na filtragem do caldo sobra a torta de filtro, utilizada para adubagem no campo, e após ser feito o etanol tem a linhaça, que vai ser utilizada na fertilização no campo. O conceito de economia circular está bastante presente no setor.




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Em 2017 foi criado o Renovabio, o principal instrumento do programa do Governo Federal, que estabelece metas nacionais anuais de descarbonização para o setor de combustíveis. Com ações que combatem a emissão e capturam o CO2 da atmosfera, as empresas produtoras de biocombustíveis após a auditoria em sua cadeia de produção recebem uma certificação. O presidente da Siamig (Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais, o Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool do Estado de Minas Gerais e o Sindicato da Indústria do Açúcar no Estado de Minas Gerais), Mário Campos, explica como setor sucroenergético contribuiu na diminuição dos impactos ambientais. “O Renovabio já nasceu sem desmatamento, lincado ao Código Florestal Brasileiro, criou o primeiro mercado de crédito de carbono, sendo que este ano serão 24 milhões de CBIOS (crédito de descarbonização por biocombustíveis) comercializados ou 24 milhões de CO2 evitados pela troca do combustível fóssil por renovável”.

Mário Campos também explicou que, para participar do programa, as propriedades não podem ter desmatamento “em hipótese nenhuma, mesmo que legal", frisou. As áreas também devem estar no Cadastro Ambiental Rural, seguindo as normas do Código Florestal Brasileiro. Todas as usinas sucroenergéticas do Triângulo Mineiro participam do programa.

O Triângulo Mineiro tem mostrado potencial para geração de energia elétrica renovável. De acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Minas Gerais lidera o segmento, com potência instalada de 736,9 MW, o que corresponde a 19,9% de toda a capacidade do Brasil. O Triângulo Mineiro é a região que concentra o maior número de investimentos, sendo Uberlândia o município de maior destaque.

O relator inicial do Código Florestal Brasileiro e ex- Ministro de Estado da Secretaria de Coordenação Política e Relações Institucionais do Governo, Aldo Rebelo, disse em entrevista para a Rádio JM que mais de 80% da energia usada no Brasil provém de fontes renováveis, a chamada energia verde. “Energia hidroelétrica, biocombustível, etanol é a cana de açúcar é daí que vem nossa matriz energética”, salientou.

Exigências legais
Em 2012 foi aprovado o Código Florestal Brasileiro. Entre as diversas normas que o código estabelece está a obrigatoriedade do Cadastro Ambiental Rural (CAR). O CAR é um registro público eletrônico de âmbito nacional, obrigatório para todos os imóveis rurais, com a finalidade de integrar as informações ambientais das propriedades e posses rurais referentes às Áreas de Preservação Permanente - APP, de uso restrito, de Reserva Legal, de remanescentes de florestas e demais formas de vegetação nativa, e das áreas consolidadas, compondo base de dados para controle, monitoramento, planejamento ambiental e econômico e combate ao desmatamento.

“A legislação florestal vigente impõe medidas protetivas a áreas especialmente protegidas. O proprietário rural, ressalvado as exceções quanto à Bioma e módulos rurais, têm que possuir 20% a título de reserva legal em sua propriedade” explicou João Henrique Vieira da Silva, advogado do Sindicato dos Produtores Rurais de Uberaba.
Outro ponto exigido pelo Código Florestal, no artigo 78-A, é a exigência do recibo de inscrição no CAR para ter acesso a crédito rural e ao seguro agrícola.

“Nós oferecemos ao mundo e ao Brasil uma legislação ambiental que é a mais avançada do planeta” disse Aldo Rebelo sobre o Código Florestal para a Rádio JM.

Então vamos aos números

  • Conforme um estudo publicado pela Embrapa este ano, usando dados do Banco Mundial, o Brasil produz alimento para mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo por ano.
  • O cômputo por geoprocessamento de dados do IBGE e pela Embrapa Territorial somou mais de 2,8 milhões de quilômetros quadrados de áreas dedicadas à preservação em zonas rurais, a maioria em terras privadas.
  • Ainda conforme o IBGE os cerca de 6 milhões imóveis rurais registrados no CAR contribuem com cerca de 2,3 milhões de quilômetros quadrados de vegetação nativa.
  • As áreas protegidas em terras públicas e as preservadas pelo mundo rural em terras privadas totalizam cerca de 4,8 milhões de quilômetros quadrados, ou 56,4% do Brasil.
  • As 1.689 unidades de conservação integral protegem 9,3% do território nacional.
  • E as 614 terras indígenas ocupam 13,8% do país.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ.
O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.

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