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Uberaba, 17 de setembro de 2019 -

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Lídia Prata
Renato Abrão RENATO ABRÃO 28/07/2019

Bom dia, leitores do Jornal da Manhã!

Aproveitando o gancho de uma matéria recente no Fantástico, hoje vamos falar das secreções que saem pelo bico do peito, o que elas significam, como diagnosticar e tratar. Para falar sobre esse assunto, convidei o Dr. Djalma Abrão, visto não só pela bagagem científica que ele possui, mas, também, pela parte ética, que envolveu esse assunto na reportagem.

“Bom dia, leitores da coluna do Dr. Renato Abrão, é rotina na clínica ginecológica as pacientes chegarem preocupadas com a saída de líquido pelo mamilo, com medo de terem um câncer de mama. Felizmente, a descarga papilar só é associada ao câncer de mama em torno de 3% dos casos, em mulheres, podendo chegar a 25% se for em um homem.

A causa mais comum de descarga pelo mamilo é a ectasia ductal, que é a dilatação de ductos por secreções produzidas pela própria mama. Esses ductos dilatados, ao serem comprimidos, eliminam uma secreção pelo mamilo. A secreção da ectasia ductal é bilateral e, à compressão, tem coloração variada e sai por vários ductos.

Outra secreção comum é a leitosa (galactorreia). Esse líquido se dá pelo aumento dos níveis do hormônio prolactina no sangue da paciente, estimulando o aumento da produção de leite pelas glândulas mamárias. Pode ocorrer por uso de alguns medicamentos antidepressivos (vg, sulpirida) ou por uso de antieméticos (vg. Plasil). Há alguns tumores de hipófise, chamados de prolactinomas, que, ao produzirem prolactina, levam ao aparecimento de secreção láctea nas mamas.

Porém, quando a secreção for transparente ou sanguinolenta, unilateral, uniductal e espontânea, é necessário prosseguir com investigação. O mais provável é que seja um tumor benigno dentro de um ductal – papiloma intraductal. Mas em aproximadamente 10% dos casos pode ser um câncer de mama.

Visto isso, o que fazer diante de uma secreção mamilar? A investigação da secreção papilar começa na obtenção de uma história clínica completa, com caracterização da descarga (cor, volume, lateralidade, espontaneidade). O exame físico da mama é muito importante, pois pode detectar a presença de nódulos e serve para obter material do derrame papilar.

Com a história e o exame físico, o médico já tem uma noção se a descarga é fisiológica ou patológica. Os derrames fisiológicos bem caracterizados em pacientes com mamografia e ultrassom normais não necessitam de investigação adicional.

Os achados da mamografia, quando anormais, fornecem bons dados para a investigação do derrame papilar, embora podendo ser achados associados, e não causais. A meu ver, a mamografia deve vir associada à ultrassonografia mamária em todos os casos de derrame papilar. A ultrassonografia das mamas detecta nódulos de mama e classifica os nódulos como sólidos ou císticos e auxilia na identificação de pólipos e dilatações ductais.

A citologia pode ser colhida no momento da compressão mamilar. A citologia pode auxiliar no diagnóstico de papilomas, células ductais benignas, células atípicas ou células malignas, mas a sensibilidade do método é muito baixa para detectar o câncer. Portanto, quase não a utilizamos mais.

A regra fundamental é: na presença de secreções mamilares suspeitas, devemos investigar até se confirmar ou excluir a presença de câncer da mama. Para finalizar, só queria deixar claro que não existe em nenhuma literatura mundial o ato médico de se fazer sucção com a boca no mamilo da paciente para avaliar a descarga papilar, como foi mostrado no Fantástico. Esse tipo de atitude só ajuda a desvalorizar a nossa profissão, que é sempre alvo de críticas e denúncias. Espero que possa ter ajudado a tirar mais uma dúvida relacionada ao câncer de mama.

Um bom domingo a todos!”

 

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