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Lídia Prata
Renato Abrão RENATO ABRÃO 26/07/2020


Dra. Adriana Batista Alves Martins

Aproximadamente, 30% dos pacientes com câncer apresentam dor no momento do diagnóstico, mais de 50% sentem dor em algum momento da doença e esse número aumenta para quase 70% em casos de doença avançada. Sabe-se que o estresse fisiológico gerado pela dor não controlada atua como um fator contribuinte da lentidão de processos de reabilitação e de recuperação de danos, podendo ter impacto inclusive nos resultados oncológicos. Redução de capacidade funcional, aumento de dependência física, alterações de humor, isolamento social, distúrbio do sono, alterações do apetite, dificuldade de movimentação e deambulação, prejuízo da autoavaliação de saúde, aumento da necessidade de gastos com cuidados de saúde e comprometimento da qualidade de vida também podem ser decorrentes de dor mal controlada.
 
Alguns trabalhos mostram que menos da metade dos que sofrem de dor se queixa ao seu oncologista, muitas vezes por receio de que o relato de dor possa prejudicar o tratamento da doença oncológica ou mesmo por acreditar que a dor durante o processo da doença é normal, não podendo ser controlada. Além disso, cerca de 25% dos pacientes com câncer morrem com dor mal controlada.
 
A dor no paciente com câncer pode ter diversas etiologias, sendo o diagnóstico etiológico da dor, no momento da avaliação, primordial para o seu tratamento. Invasão tumoral local, compressão extrínseca, obstrução visceral, ulceração cutânea e fraturas patológicas são exemplos de dor diretamente relacionada ao câncer. Mas o desconforto pode ter origem nos próprios procedimentos diagnósticos ou tratamentos, por exemplo, nas síndromes dolorosas pós-biopsias, cirurgias ou punções; nas neuropatias ou mucosites pós-quimioterapia (QT) ou hormonioterapia, e nas injúrias por radioterapia (RT). Infecções oportunistas dolorosas, como no herpes zoster, são frequentes nessa população.
 
O paciente oncológico deverá ter uma avaliação adequada da dor quanto à localização, qualidade, intensidade, início, frequência, fatores desencadeantes, fatores de alívio ou piora e impacto nas atividades cotidianas, que devem ser identificados e descritos. Recomenda-se a utilização de escalas específicas, que podem ser classificadas em uni ou multidimensionais e devem ser aplicadas de acordo com a faixa etária e capacidade cognitiva do indivíduo avaliado. Considerar tratamentos anteriores adotados para alívio da dor é muito importante, a fim de evitar que medidas que já falharam previamente sejam novamente propostas. Isso é especialmente importante quando da prescrição de opioides, a qual muitas vezes é realizada sem considerar efeitos adversos prévios ou a possibilidade de que o paciente já apresente tolerância e necessite de ajustes de doses, além do adequado cálculo de dose equivalente quando são necessárias rotações dos mesmos.


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A terapia farmacológica se mantém como ponto-chave no tratamento da dor oncológica, devendo ser multimodal. A escada analgésica da OMS, introduzida em 1986 e disseminada em todo o mundo, continua sendo reconhecida como uma ferramenta educacional útil, mas não como um protocolo rigoroso para o tratamento da dor oncológica [WHO Guidelines: Cancer pain in adults and adolescentes, 2019]. Ela norteia o manejo medicamentoso, porém atualmente outros estudos indicam uma tendência à supressão do segundo degrau, além da descrição de sugestões para a inclusão de um quarto degrau para locar as opções de intervenção.
 
Essas alterações não têm por intuito negar o uso da escada original, que já se mostrou efetiva ao longo dos anos, mas tais adaptações se mostram necessárias para assegurar seu uso continuado com as inovações mais recentes em farmacologia e intervencionismo, sem perder sua simplicidade original, facilitando a disseminação do conhecimento em dor oncológica [J Pain Res 9:515, 2016; Can Fam Physician 56:514, 2010]. Recomendamos o uso de opioides fortes como primeira linha de analgésicos para o tratamento da dor oncológica, sobretudo quando moderada a intensa. Os opioides constituem o principal pilar no tratamento da dor oncológica e podem ser utilizados em todos os tipos de dor, nos casos de dores mistas ou de difícil controle os adjuvantes, analgésicos comuns, anti-inflamatórios e os tratamentos intervencionistas também podem ser indicadas. Outras medidas como RT antiálgica e o próprio tratamento da doença de base devem ser avaliados e ponderados para que se alcance controle satisfatório. Não podemos menosprezar as terapias não farmacológicas que, somadas às terapias farmacológicas, fazem com que haja melhor controle dos sintomas e melhora da qualidade de vida dos pacientes oncológicos.
“A dor só é insuportável quando ninguém cuida.” (Cicely Saunders)
 
CRM-MG 47615/ RQE 43509
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ.
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