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Uberaba, 27 de maio de 2020 -

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Lídia Prata
Virgínia Abdalla VIRGÍNIA ABDALLA 06/04/2020


Tempos de crise são tempos de sofrimento e dor, mas também de transformação e conversão.

Na sua imperial exigência de isolamento o vírus desacelerou o mundo, levou as pessoas de volta ao convívio com a família e, mais que isso, oportunizou que cada um de nós ficasse muito mais próximo de si mesmo. O vírus também nos lembra que o ser humano, na sua tão complexa diversidade, consegue rapidamente se (re) articular, buscar respostas e, quem sabe, se tornar ainda melhor?! Amor acima de tudo. É a palavra de ordem.

E você? Que pessoa você quer ser quando tudo isso acabar? Veja o que disseram nossos entrevistados.

“Estimada amiga Virgínia Abdalla. Na verdade eu quero ser a mesma pessoa depois que essa tormenta ditada pelo coronavírus passar. As lições que estou recebendo, entretanto, é que me permitirão rever alguns conceitos, definições, posicionamentos e conclusões. A primeira das lições é a de que estamos todos num mesmo plano no universo. Ninguém, eu digo ninguém, pode se ufanar a ponto de dizer que estará livre desse vírus e de outros que o mundo atual pode ou poderá nos impingir. O momento é de solidariedade, conceito esse tão deturpado e que estamos passando a limpo.”


Dr. João Eurípedes Sabino – Presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro – ALTM

“Que pessoa quero ser.....
Imagino que neste período de reclusão, estamos “ LAVANDO NOSSA ALMA”. Quando tudo passar, quero literalmente estar de ALMA LAVADA!! Mais leve para seguir minha caminhada, com serenidade, paz, harmonia, paciência, muita fé e gratidão.
Valorizar cada momento, cada instante com as pessoas que amo, me perder em um abraço bem apertado e comemorar a vida.
E aí, vamos já marcar um happy hour?
A vida é curta, vamos ser felizes!!”

Denise Tahan – Executiva dos Hotéis Tamareiras

“Uma pessoa mais compreensiva e consciente do nosso papel nesse mundo.”

Paulo Miranda – Artista Plástico e Coordenador do Museu de Arte Decorativa de Uberaba – MADA

"A quarentena imposta pelo coronavírus, mudou a forma de se relacionar, trabalhar, e pra mim de ver o mundo! Com a tecnologia estamos conseguindo nos adaptar ao novo com maior rapidez

Tecnologia x mundo físico.
Solidariedade, criatividade e redefinição de estratégias são palavras chaves para passar esse momento difícil que todos atravessamos.
Certeza que sairei uma pessoa mais agradável de se conviver."

Alê Roso - Arquiteta e vice-presidente do Instituto de Engenharia e Arquitetura do Triângulo Mineiro – IEATM

"Tenho certeza que crescerei interiormente. Tenho aproveitado este isolamento para refletir muito. Descobri que a beleza da vida está nas coisas simples e nas pessoas que nos cercam. Quero ser eu mesma."

Dulce Helena Borges Guaritá Bento - Voluntária e ex-empresária

"Quero continuar sendo a mesma pessoa que sempre fui, mas é claro que nestes últimos dias acabei me transformando também. Todos nós sairemos com uma reflexão ou uma lição após essa pandemia. Eu, Vera Tuychi particularmente quero viver mais o presente, pois com tudo isso aprendi que não existe época, idade, ou um determinado tempo para viver. Precisamos viver o presente, o dia de hoje, celebrando e sendo feliz. Pretendo ter mais tempo com pessoas que amo, isso inclui amigos e a minha família. Ser mais solidária, mais humana e menos egoísta. Chorar mais vezes, principalmente quando minha alma se encontrar em aflito. Não acumular ressentimentos. Acreditar mais nos meus sonhos e concretizá-los. Não terceirizar minha felicidade. Não me culpar tanto. Conversar ainda mais com Deus e principalmente estar em paz comigo mesmo. E claro continuar vivendo intensamente e trabalhando na minha loja que conquistei com muito trabalho e estar sempre cercada das pessoas que tanto amo!"

Vera Tuychi – Empresária

“Em um momento de crise pessoal e coletiva, é comum depararmo-nos com todas aquelas emoções que pareciam estar adormecidas, que se afloram com força total. O que é esperado, e comum. No entanto, esse poderá ser um momento para nos conectarmos mais profundamente com nós mesmos e indagar-nos: o que desejamos receber das pessoas que nos rodeiam? De nós mesmos? Do mundo? Que tipo de ser humano desejamos ser para nós e para os demais? Talvez seja importante buscarmos atividades mais alinhadas ao nosso bem-estar não só físico, mas mental, social e espiritual (não me refiro à religião) - mesmo dentro de casa. Observar-nos mais, sobre como nos relacionamos e comunicamos com nós mesmos e com o outro. Após “as crises”... Gostaria de seguir no caminho para ser uma pessoa cada vez melhor, mais compassiva e auto compassiva, que desenvolva cada vez mais uma escuta empática, mais responsiva, com abertura, aceitação para o que há no presente, equânime. Esse é um caminho que busco há muito tempo, e esse momento valida-o.”

Sumaya Figueiredo - Coordenadora do Instituto do Cérebro (Uberaba)

"Acredito que será transformador. Todos seremos mais solidários, amigos, companheiros, filhos e pais. Estamos sendo privados do convívio de quem amamos, do que gostamos de fazer, dos lugares que frequentamos enfim, a grande lição que ficará é que nada nos pertence e tudo que temos poderá ser retirado num piscar de olhos. Que nosso esforço não seja em vão."

Dr. João Henrique Almeida - Advogado

Leitura Do livro
O Amor nos Tempos do Cólera
Gabriel Garcia Marques

- Capitão, o menino está preocupado e muito inquieto devido à quarentena que o porto nos impôs!
- O que te inquieta, menino? Não tens comida suficiente?
Não dormes o suficiente?
- Não é isso, Capitão. É que não suporto não poder ir à terra e abraçar minha família.
- E se te deixassem sair do navio e estivesses contaminado, suportarias a culpa de infectar alguém que não tem condições de aguentar a doença?
- Não me perdoaria nunca, mas para mim inventaram essa peste.
- Pode ser, mas e se não foi inventada?
- Entendo o que queres dizer, mas me sinto privado da minha liberdade, Capitão, me privaram de algo.
- E tu te privas ainda mais de algo.
- Está de brincadeira, comigo?
- De forma alguma. Se te privas de algo sem responder de maneira adequada, terás perdido.
- Então quer dizer, segundo me dizes, que se me tiram algo, para vencer eu devo privar-me de mais alguma coisa por mim mesmo?
- Exatamente. Eu fiz quarentena há 7 anos atrás.
- E o que foi que tiveste de te privar?
- Eu tinha que esperar mais de 20 dias dentro do barco. Havia meses em que eu ansiava por chegar ao porto e desfrutar da primavera em terra. Houve uma epidemia. No Porto Abril nos proibiram de descer. Os primeiras dias foram duros. Me sentia como vocês. Logo comecei a confrontar aquelas imposições utilizando a lógica. Sabia que depois de 21 dias deste comportamento se cria um hábito, e em vez de me lamentar e criar hábitos desastrosos, comecei a comportar-me de maneira diferente de todos os demais. Comecei com o alimento. Me impus comer a metade do quanto comia habitualmente. Depois comecei a selecionar os alimentos de mais fácil digestão, para não sobrecarregar o corpo. Passei a me nutrir de alimentos que, por tradição histórica, haviam mantido o homem com saúde.

O passo seguinte foi unir a isso uma depuração de pensamentos pouco saudáveis e ter cada vez mais pensamentos elevados e nobres. Me impus ler ao menos uma página a cada dia de um argumento que não conhecia. Me impus fazer exercícios sobre a ponte do barco. Um velho hindu me havia dito anos antes, que o corpo se potencializava ao reter o alento. Me impus fazer profundas respirações completas a cada manhã. Creio que meus pulmões nunca haviam chegado a tamanha capacidade e força. A parte da tarde era a hora das orações, a hora de agradecer a uma entidade qualquer por não me haver dado, como destino, privações graves durante toda minha vida.

O hindu me havia aconselhado também a criar o hábito de imaginar a luz entrando em mim e me tornando mais forte. Podia funcionar também para as pessoas queridas que estavam distantes e, assim, integrei também esta prática na minha rotina diária dentro do barco.

Em vez de pensar em tudo que não podia fazer, pensava no que faria uma vez chegado à terra firme. Visualizava as cenas de cada dia, as vivia intensamente e gozava da espera. Tudo o que podemos obter em seguida não é interessante. Nunca. A espera serve para sublimar o desejo e torná-lo mais poderoso. Eu me privei de alimentos suculentos, de garrafas de rum e outras delícias. Me havia privado de jogar baralho, de dormir muito, de praticar o ócio, de pensar apenas no que me privaram.

- Como acabou, Capitão?
- Eu adquiri todos aqueles hábitos novos. Me deixaram baixar do barco muito tempo depois do previsto.
- Privaram vocês da primavera, então?
- Sim, naquele ano me privaram da primavera e de muitas coisas mais, mas eu, mesmo assim, floresci, levei a primavera dentro de mim, e ninguém nunca mais pode tirá-la de mim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ.
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