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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Quem cola não sai da escola

Posicionamento de responsável pela coordenação de um dos cursos de Direito oferecidos pelo ensino superior de Uberaba, chamou minha atenção essa semana. Diante do registro formal, por uma professora, da tentativa de fraude acadêmica por um de seus alunos, imediatamente determinou instauração do procedimento administrativo institucional para apurar o comportamento anti-acadêmico caracterizado pela tentativa de “cola” em uma avaliação. Comprovado o fato, o discente foi punido com suspensão de cinco dias e cientificado que uma reincidência não será tolerada.

Essa foi a primeira vez que vi o regimento de uma instituição de ensino superior ser aplicado de forma a coibir a prática da “cola”. O comportamento é visto com passividade por alunos, professores e até mesmo gestores de inúmeras instituições de ensino pelo Brasil afora, sem falar na apatia dos pais quanto ao comportamento e o que ele representa: uma transgressão ética inaceitável.

Quando se fala em fraude acadêmica, lembramos daqueles filmes americanos em que os cientistas falseiam dados para conseguir mais recursos para suas pesquisas, ou então de questões como o plágio, que é a utilização de trabalho que pertence a terceiro sem que os créditos pela informação lhe sejam assegurados. A prática da “cola”, contudo, é algo que já se encontra banalizado.

A “cola” é um hábito antigo e que parece não ter fim. Segundo meus pais e avós a repressão de professores era bem mais efetiva no passado, com punições extremamente severas quando o flagrante da fraude era registrado pelos mestres. Atualmente, com os avanços tecnológicos disponíveis, “colar” ficou ainda mais fácil.

As caixinhas de fósforo com “papiro”, “mensagens no corpo da caneta” e os tradicionais “pequenos lembretes” foram substituídos por mensagens em celular, pagers e até lembretes virtuais em relógios digitais. É fato que a fiscalização tornou-se mais difícil e deixa os educadores mais comprometidos com a qualidade no ensino de cabelo em pé. Contudo, a passividade com que grande parte dos professores age diante da “cola” é simplesmente absurda.

Vale lembrar a lição de Leonardo Da Vinci ao afirmar que “aquele que não pune a maldade, apoia sua ação”. Sim, fraude acadêmica é sinônimo de maldade. É a materialização da concorrência acadêmica desleal e ainda afeta a imagem daqueles que não compartilham de sua utilização, mas são colocados pela sociedade na vala comum: “Todo mundo cola”.

O ser humano, segundo a ótica do filósofo Jean-Jacques Rousseau deve a sua espécie indivíduos e a sua pátria cidadãos. Quando deixamos de estabelecer limites ao indivíduo permitimos a distorção de seu caráter. Tratar a “cola” como algo natural e admissível é o mesmo que legitimar a lei do “jeitinho” na vida acadêmica.

Será esse transgressor da conduta acadêmica, o cidadão apto a promover a profunda mudança de que nosso país precisa? Alguém que se acostumou à utilização de atalhos para alcançar seus objetivos. Alguém que não honra ninguém além de si mesmo. Alguém que faz o mal, mas fingi fazer o bem. Se o for, estamos aderindo à dinâmica maquiavélica de que “os fins justificam os meios”.

O fenômeno da globalização é um processo crescente de dominação. Sua dinâmica econômica, científica e tecnológica exige profundas em nossa sociedade. Os governos que não traçam políticas públicas eficientes para a educação, eliminam o povo de seu aparato discursivo para defender uma ideologia consumista voraz. E pior, provocam o desarmamento político ideológico de nossa sociedade.

Com o cenário caótico que se apresenta nesta sociedade de consumo amplamente estabelecida em nosso País, a educação deve funcionar como um mecanismo de triplo papel: Ela deve propiciar ao indivíduo o aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a viver e o aprender a ser. A educação de qualidade é um elemento de “imunização” contra a alienação e o desarmamento político ideológico promovido pelo interesse econômico.

Se por aqui tratamos a educação como um bem supérfluo e permitimos a corrupção do sistema instalado com a fraude acadêmica, com a “cola” entre suas modalidades, países como os Estados Unidos têm destinado à temática a atenção que ela merece.

Segundo a Folha de São Paulo do dia 18 de agosto deste ano, somente no ano passado os norte-americanos gastaram US$ 110 milhões investigando 217 denúncias de má conduta científica. Por aqui, quando nos deparamos com a suspensão de um aluno que se deixou sucumbir ao desejo de um resultado fácil, utilizando-se da “cola” para alcançar seu objetivo, não faltam “olhares tortos” e reprovações diversas, a maioria defendendo que houve um excesso na punição.

Embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional pareça tentar despertar o Estado para crise vivida pela educação brasileira, para que o sucesso seja obtido é preciso união. A educação não deve ser revista somente sob a ótica dos pedagogos. É necessária uma mudança drástica neste paradigma de forma a somar esforços rumo à construção de um novo conceito educacional.

A educação vive hoje um grande desafio. Para alcançar os objetivos necessários ao desenvolvimento do Brasil, na sociedade globalizada, ela precisa ser capaz de cumprir seu papel. É necessária a formação de um cidadão apto a compreender o contexto político atual e participar de seus processos com visão crítica e pleno domínio de sua cultura e identidade, sem, contudo, refutar com veemência a abertura e a integração mundial advinda do fenômeno globalizante.

Somente assim, deixaremos de assistir ao “espetáculo” da eleição para a Câmara dos Deputados, de representantes como o humorista Tiririca, que sem possuir condições de comprovar sua escolaridade parece ter recorrido a alguém para redigir a declaração de que ele sabia ler e escrever, um comportamento que se comprovado pode ser tipificado como fraude. Não apresentou qualquer proposta à sociedade e, mesmo assim, alcançou a marca de inacreditáveis 1,3 milhão de votos.

É o “jeitinho” da sociedade brasileira para se furtar à responsabilidade de contribuir para o desenvolvimento de nosso País. E parte da culpa está na forma como encaramos a nossa educação. Permitir que a prática da “cola” continue existindo sem que o seu banimento da vida acadêmica seja ao menos objeto de
ações efetivas no âmbito institucional e também na célula familiar, já que contribuir para a formação do caráter de seus filhos é um dever dos pais, é colaborar para que as desigualdades sociais em nosso País tornem-se ainda maiores.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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