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Uberaba, 17 de maio de 2022 -

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O pressuposto da verdade

No excelente livro “Falando com estranhos” de Malcolm Gladwell, o autor questiona por que tantas vezes fazemos julgamentos equivocados que nos levam a avaliar de forma errônea as pessoas que não conhecemos. Segundo ele, partimos do princípio de que todos falam a verdade – o chamado pressuposto da verdade. Manter esse pressuposto da verdade em todas as situações, só é possível porque não temos escolha, mesmo nas decisões mais difíceis. A sociedade não consegue funcionar de forma diferente. Exemplifica, dizendo que se todos os pais acreditassem que todo treinador é pedófilo não deixariam seus filhos saírem de casa. Preferem ignorar o risco, mesmo conhecendo vários casos de abusos apurados e punidos, pois é mais fácil seguir o pressuposto da verdade, do que contrariá-lo. Aqui no Brasil, o caso mais emblemático foi o do famoso médium João de Deus, que recebia pessoas de todo o país em busca de curas milagrosas. Como desconfiar de uma pessoa que se dispunha a curar em nome da fé, sem cobrar nada dos que o procuravam?

Mudemos para a política. Eleitores hipotecam apoio incondicional ao seu candidato pressupondo que ele fala a verdade, prega a verdade, e combate a mentira. Quando eleito, o que comumente se vê é o abandono sem pudor, da plataforma eleitoral, que tendo servido a seu propósito é descartada, dando lugar a uma guinada oposta a tudo que foi dito e prometido.  Ao eleitor cabe buscar justificativas para a sua má escolha, o que não o impede de errar de novo, mesmo estando cansado de saber que os políticos, em sua maioria, não são coerentes.

Segundo o livro, é preciso que surja de tempos em tempos os chamados “loucos santos” que são desajustados sociais, excêntricos, irritantes, às vezes até malucos, mas capazes de apontar, como no famoso conto “A roupa nova do imperador”, de Hans Christian, que o rei está nu. O que distingue o louco santo dos demais é uma percepção diferente da possibilidade de fraude. Eles estão sempre dispostos a se sacrificar para denunciar o erro e o logro. E jamais são atraídos pelos holofotes do Poder e pelas benesses oferecidas para se calarem.

Infelizmente, quando surge algum louco santo brasileiro, a máquina do ódio trabalha intensamente para desqualificá-lo. Perseguem, mentem, intimidam, cancelam. Então, o povo não esclarecido, segue comodamente firme, no pressuposto da verdade. Afinal, um presidente da república, um ministro de Estado, um juiz, um desembargador, ou outra autoridade qualquer, não deveriam mentir ao povo.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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