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Uberaba, 21 de outubro de 2019 -

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Marcelo Rech

Montanhas colombianas

Embora a morte seja um fato presente no nosso cotidiano, nunca estamos preparados para lidar profissionalmente com a tragédia quando ela, sorrateira e repentinamente, nos atinge em cheio. Seja porque estamos em constante movimento, porque testemunhamos tiroteios, brigas e manifestações violentas ou porque, às vezes, somos os únicos a querer entrar em lugares de onde todos querem sair, profissionais da comunicação sentem com frequência a mesma dor das pessoas que protagonizam coberturas trágicas.

Além da sombra dos acidentes e dos conflitos, jornalistas são alvos com triste regularidade de agressões por quem quer calar a verdade e a liberdade de expressão. Mesmo assim, o risco de morte é raramente comentado entre nós. Trata-se de uma espécie de superstição: imaginamos que, quanto menos falarmos dela, mais distante ela deverá se manter.

Infelizmente, nada mais falso nesse episódio. A morte de 21 profissionais em um acidente é uma das maiores tragédias que já atingiram a imprensa mundial na história recente.  Em todas as latitudes e longitudes, o mundo do jornalismo está abalado e consternado como raramente se viu antes.

Os 21 profissionais da comunicação que estavam no voo charter haviam sido escolhidos a dedo para a missão. Participar da cobertura de uma final internacional é uma pauta reservada a poucos - uma espécie de condecoração jornalística ansiada por todos que atuam na imprensa esportiva. Os colegas que morreram na Colômbia, entre os quais cinco queridos companheiros da RBS, eram exemplos dessa estirpe - combinavam seu talento com um dos momentos mais gloriosos do futebol catarinense e a paixão de informar.

Em nenhuma atividade há morte nobre - só há mortes e dramas pessoais e familiares a se lamentar e se solidarizar.  Mas as mais de duas dezenas de profissionais que perderam a vida nas montanhas colombianas deixam a suas famílias, amigos e colegas a eterna admiração e respeito por quem, como eles, não mediam esforços por levar informação ao público. Essa sim é uma missão nobre e fundamental para a sociedade e, por isso, os colegas mortos permanecerão para sempre como uma luz a inspirar a profissão e as próximas gerações de jornalistas. 

(*) Marcelo Rech é vice-presidente editorial do Grupo RBS, presidente da Associação Nacional de Jornais e presidente do Fórum Mundial de Editores

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