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Uberaba, 04 de dezembro de 2021 -

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Frei Mariano S. Foralosso OP

As portas escancaradas do claustro dos Dominicanos

Quando São Domingos fundou a Ordem dos Pregadores, no panorama da vida religiosa da época existia, como modelo dominante, o da vida monástica. Os monges viviam totalmente entregues à contemplação, na “fuga do mundo”. Os mosteiros surgiam normalmente longe das cidades, na paz e no silêncio da natureza. O monge fazia até um quarto voto, além dos três da vida religiosa: o voto de estabilidade no mosteiro. Era o compromisso de permanecer na clausura, dentro do recinto do mosteiro que o acolhia. O claustro dos monges tinha uma única abertura: para o céu. A porta estava normalmente fechada.

São Domingos criou uma verdadeira revolução na vida religiosa. Não mais a pura contemplação, mas o binômio de contemplação e ação: contemplação para a ação e a partir da ação. Tudo da vida religiosa dominicana existe em função da pregação, do anúncio e do testemunho. O Dominicano procura se santificar, não só para ele próprio ir ao céu, mas para dar testemunho aos irmãos, para garantir credibilidade à sua pregação com o exemplo de vida. O claustro dos Dominicanos está colocado no coração da cidade dos homens e tem a porta aberta, diria até “escancaradas” para o mundo, para as ruas da cidade e as estradas do mundo onde acontece a vida. Porta aberta para que a vida, os apelos da realidade, os sofrimentos e as alegrias dos irmãos venham alimentar e motivar a contemplação e o estudo dos pregadores, e para que os pregadores possam sair e se fazer próximos, companheiros de caminhada com os irmãos.

Os dominicanos: frades e leigos, irmãs e monjas, costumam viver tendo numa mão a Palavra de Deus e na outra o... jornal. Os novos religiosos de Domingos se distinguiam pela assídua dedicação ao estudo. Também o monge estudava, para alimentar a sua vida espiritual de contemplativo. Nós, Dominicanos, estudamos bastante: “para podermos ser úteis aos nossos irmãos”.  

O horizonte da missão dos pregadores é o da realidade. Os púlpitos de nossa pregação estão na igreja, mas sobretudo fora da porta da igreja, na vida que corre, junto à humanidade que caminha e constrói a sua história. E é a humanidade na sua totalidade, que hoje se reencontrou e vive cada vez mais interligada, na aldeia global. Domingos enviou seus discípulos aos quatro cantos do mundo para concretizar o mandato do anúncio universal do Evangelho que Cristo deu a seus discípulos: “Ide pelo mundo inteiro, anunciai o Evangelho a todos os povos”. A paróquia dos Dominicanos é o mundo todo. Seu compromisso é para todos os mundos do planeta Terra.

Esta foi e permanece a novidade revolucionária que o projeto de Domingos representou e representa, no mundo de hoje, como no da Idade Média. É neste sentido que frei Henri Lacordaire afirmava, ainda na metade do século XIX: “Esta Ordem de antigo só tem a sua história”. Neste Jubileu podemos então, com pleno direito, comemorar os oitocentos anos de juventude da Ordem: oitocentos anos de presença e de compromisso com a realidade!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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