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Uberaba, 17 de maio de 2022 -

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Amizade

Você quer ser meu amigo? Creio não existir outra questão mais embaraçosa para responder do que essa. Afinal uma amizade não se ganha ou se compra, ela é conquistada a partir de encontros, ideias, conhecimento e respeito recíprocos. E quem é introvertido de maneira excessiva ou mesmo não gosta muito de si mesmo, dificilmente irá abrir-se para alguém que deseja tê-lo(a) sempre por perto. Confesso que hoje não tenho amigos; nenhum! Antissocial, eu? Penso que sim, principalmente levando-se em conta que a confiança e o respeito estão, cada dia mais, difíceis de ser conquistados e mesmo porque o tempo de muitos está quase exíguo em função do trabalho, da escola, das obrigações domésticas, do uso do telefone celular e de uma severa cobrança de nos mesmos por uma maior atenção e disciplina em relação a muito daquilo em que nos enxergamos diariamente envolvidos. Como posso oferecer o meu tempo a outras pessoas, se o tempo que preciso para relacionar-me até comigo mesmo está cada vez mais exíguo? E se eu sinto em determinada pessoa uma confiança e afinidade que façam aproximar-me dela, mas ao mesmo tempo vejo-me fragilizado em poder oferecer-lhe aquilo que poderia aprofundar uma confiança e uma consideração recíprocas? Simples, amizades acontecem. Algumas vezes queremos ser amigos de alguém; aquele alguém deseja ser nosso amigo, mas, por circunstâncias que fogem ao nosso controle, a amizade não eclode... masca! Várias vezes, em meus mais de sessenta anos de vida, considerei algumas pessoas na condição de quase amigas, até que um dia começou a faltar respeito recíproco com as minhas diferenças e as delas. Desde muito eu reclamava a falta de uma pessoa que conheci no meu tempo de ginásio, em Belo Horizonte; éramos muito amigos até que me casei e mudei para uma cidade distante. Faltou o cultivo, faltou a comunicação, perdemo-nos entre obrigações de uma vida adulta que desabrochava para nós e enchia-nos de compromissos diversos. Um dia, alguns quarenta anos depois que nos vimos pela última vez, eu soube por um dos meus irmãos que aquele amigo havia falecido em trágico acidente. Na primeira oportunidade viajei até Belo Horizonte e investiguei o seu paradeiro ou ao menos a confirmação do seu falecimento. De um dos seus antigos vizinhos de prédio recebi a confirmação da sua morte, em um trágico acidente de motocicleta. Seus pais já haviam falecido, sua única irmã havia se casado e o seu endereço ninguém sabia informar. Nunca mais cultivei amizades, mas mantenho boas relações pessoais com quem compartilho algumas obrigações profissionais e relacionamentos sociais. E recordando aquele meu único amigo, posso afirmar com certeza que a sua morte não significou o término da amizade que eu nutria por ele. Cheguei à conclusão de que um verdadeiro amigo não morre para o outro: vividamente está presente nas nossas melhores lembranças.

(*) Agente social

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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