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Uberaba, 22 de maio de 2022 -

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A Revolta da Cemiterada - Salvador/Bahia 1836

Levante popular frente à proibição de enterros no interior das igrejas em atenção à ideologia higienista implantada e decorrente do movimento iluminista em vigor. A população sentiu-se altamente ameaçada com essa mudança de paradigmas – enterros ao ar livre, fora do espaço sagrado das igrejas e conventos, distantes do entorno social e comum de todos. Os revoltosos destruíram muros, capela e construções já realizadas e só foram apaziguados quando a Santa Casa de Misericórdia – Salvador/Bahia comprou o Cemitério do Campo Santo para dirigi-lo, responsabilizando-se pela manutenção dos cuidados de preservação dos enterrados dentro das crenças e valores religiosos vigentes.
Por uma live sobre “Os tesouros dos templários”, conheci um cemitério de piratas, na ilha de Nosy Boraba – Madagascar, aberto à visitação turística, onde se encontram as lápides de corsários famosos, como: Thomas Tew, Oliver Levasseur, John Taylor e John Pro; testemunho de uma época com dezenas de túmulos à mostra, bem como inscrições e símbolos interessantes. De acordo com o tema da live, o apresentador identificou símbolos templários e maçônicos.
Ao cuidarmos dos nossos mortos, preservando suas sepulturas e construindo lápides artísticas, estamos revelando como lidamos com a morte e, consequentemente, também com a vida. Ao perpetuarmos as moradas dos mortos com pedras perenes, tentamos eliminar o significado da morte como fim da vida e perda irreversível, bem como da própria vida com sua característica de fragilidade e temporalidade finita.
Inicialmente, evidenciava-se o projeto religioso de salvação da alma, daí a importância em manter os mortos no campo santo dos adros seculares. A igreja era a porta de entrada do paraíso, era também a integração da alma à corte celestial, a proximidade às imagens divinas, local ideal para aguardar a ressureição prometida para o fim dos tempos. Não havia um rompimento com o mundo dos vivos – vida e morte como continuidade, e não ruptura. A cultura de sepultamento revela uma filosofia de sustentação, uma crença religiosa e uma história. Pelas inscrições lapidárias, somos informados de como o morto gostaria de ser conhecido e rememorado, tornando-se seu registro histórico: o defunto Bernardino José de Souza, enterrado no convento de Santa Tereza, anuncia ter sido Cavalheiro da Ordem de Cristo e Coronel das Milícias das vilas de Cachoeira, Maragogipe e Jaguaribe. (Biblioteca Virtual Consuelo Ponde). Assim, ele volta a falar de si, dos seus feitos e desafios.
Também quando buscamos conhecer alguma cidade além da geografia espacial, nós nos dirigimos ao cemitério para sabermos sobre a população em sua cultura social, daí sua importância de manutenção e defesa.

Ilcea Borba Marquez
Psicóloga e psicanalista
e-mail – ilceaborba@gmail.com.br
 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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