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Uberaba, 25 de setembro de 2021 -

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Ilcéa Borba Marquez

Morrer de medo! O medo mata!

Encontramos nas falas comuns verdades significativas ao viver humano já que aquelas o simbolizam, juntamente com tudo que nos rodeia. Assim falamos: quase morri de medo, você me mata de susto... De que temos medo? Da morte foi sempre a resposta. E de todos os males que possam representá-la, antecipá-la e recordá-la. Experimentamos o medo toda vez que uma possibilidade de morte se apresente – o medo é recorrente como uma antecipação da morte.

Existe um conceito freudiano que nos auxilia na compreensão profunda do medo e suas consequências – “o desamparo”. Através dele sabemos que pânico e desespero têm ligação direta com situações em que se analisa como extremas e incapacitantes. O homem sente que precisa do amparo e auxílio do Outro, imprescindível à sobrevivência. Esses momentos são sentidos como impossibilidade de se sair bem por si próprio. Dá para perceber a ligação direta com a prematuridade dos primeiros anos de vida quando o bebê necessita de alguém que o alimente e o proteja, sem o qual a morte é iminente. Ao longo do tempo, o homem vivencia situações de dependência absoluta e fragilidade inquestionável, fazendo com que a presença e importância do Outro apaziguador seja imperiosa. Da mãe ao pai e deste à criação de fiadores na figura dos deuses, anjos, arcanjos e demônios capazes de preencher o lugar do VAZIO. São fiadores últimos da história simbólica pessoal, bem como da própria humanidade.

Nestes dois últimos anos, a pandemia colocou-nos, inegavelmente, em uma experiência gritante de desamparo, gerador de desespero e pânico, experimentados por todos individualmente e socialmente, com variações múltiplas. Alguns adoeceram defensivamente, outros buscaram consolo na comida ou bebida desregrada e outros ainda sentiram dores inexistentes e mal-estar sem fundamento orgânico/funcional. Muitos foram enquadrados como contaminados pela Covid-19, basta nos lembrarmos dos resultados falsos positivos e falsos negativos que levaram ao isolamento e a internações totalmente desnecessários. Susto, espanto, pavor, enfim medo do medo. Essa experiência de pandemia entronizou o MEDO na nossa existência, um “medo que esteriliza os abraços” (Carlos Drummond de Andrade), mesmo porque então proibidos e evitados. Segundo Espinosa, juntamente com o ódio, o medo é a mais triste das paixões tristes, caminho de toda servidão: Quem o sentiu sabe.

 

Ilcéa Borba Marquez

Psicóloga e psicanalista

e-mail: ilceaborba@gmail.com

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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