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Uberaba, 23 de outubro de 2020 -

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Ilcéa Borba Marquez

Caminho para uma reconstrução

Lançado em Berlim pós-guerra no ano de 1985 e traduzido para o português em 2012, o livro Diário de Berlim ocupada – 1945 – 1948, escrito por Ruth Andreas-Friedrich, teve tradução feita por Joubert de Oliveira Brízida, trazendo-nos relatos diários do período de ocupação russa da cidade, num cenário destruído pelos últimos atos da Guerra, sob a ótica dos sobreviventes, que, no entanto, haviam perdido sua pátria, bens, amigos e familiares. Ruth e seu pequeno grupo antinazi, que durante 12 longos anos sonharam com este momento, estavam nas ruínas da cidade, destruída por tantos bombardeios, expulsos de suas casas pela ausência de condições mínimas de vida, deslocados constantemente dos abrigos temporários numa experiência de “terra arrasada”.

Através de suas anotações, a autora consegue colocar-nos naquela Berlim como mais uma que sofre por não ter alimentos, água, luz, telefone ou meio de transporte público e qualquer serviço prestado pelo governo aos habitantes e população em geral. A precariedade também se dava pela falta de informações e notícias da situação do conflito armado ou armistício.

Os vencedores russos chegavam tomando posse de todos os bens que restavam, principalmente das mulheres solitárias e desvalidas. Certamente os alemães não agiram de forma diferente quando invadiram o território russo, mas ainda não conseguimos material comparativo, e o que fica como resto da guerra é a violência do vencedor que se apropria de tudo que deseja e ainda não tem. Mas, para os que resistiram com vida até aquele momento, outro desafio muito mais importante se configurava: como reconstruir a partir do caos.

A paixão dos germânicos pela música e teatro é conhecida e este pequeno grupo que resta em meio à destruição quase total está ligado ao movimento cultural, à música e à arte. Em certo instante, eles se dão conta de que precisam sair do lugar de apenas sobrevivente e recriar a vida através da arte. Mesmo que o inverno rigoroso tenha se adiantado e eles não tivessem agasalhos suficientes, precisavam criar um calor vindo do interior dos seus corpos, a despeito ainda da fome e de todas as faltas que vivenciavam – a ruina e o colapso do seu mundo como o conheciam até então. Precisavam criar um milagre que nasceria da intensidade do sofrimento e da intensidade do viver. Tudo que faz o fraco desistir parece fortalecer o resistente. Como se o destino os premiasse pelos anos de experiência no sofrimento e na morte com maior conscientização da existência. Nunca antes em Berlim houve como então tão apaixonada vontade de viver e tanto amor pela cultura, quando cada passo dado para cima exigia esforço desmesurado.

 Ilcea Borba Marquez -Psicóloga e psicanalista -ilceaborba@gmail.com

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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