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Uberaba, 12 de novembro de 2019 -

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Ilcéa Borba Marquez

Ser e parecer ser

A tecnologia virtual faz parte do nosso dia a dia de uma forma avassaladora, portanto impossível de ser ignorada. A possibilidade de publicações instantâneas dos momentos vivenciados via Instagram, Face e outros abriu a porta de um mundo além do imaginário ou real que podemos chamar de Aparente: a seleção, edição e compartilhamento de fotos, mensagens ou vídeos postados a serviço de um desejo premente de aceitação social, a bel-prazer do sujeito, na vitrine da vida decorada de acordo com o ideal assimilado de perfeição. Assim o “Parece Ser” ganhou força de verdade e porta de entrada para os relacionamentos afetivos e profissionais. Não podemos ignorar que estas publicações têm até mesmo uma estatística própria: o número de seguidores, as curtidas, mensagens e compartilhamentos mesmo que não saibamos o que significa ter uma certa quantidade de seguidores ou receber determinado número de acessos! 

Evidentemente as decepções acabam acontecendo trazendo em seu bojo ressonâncias desagradáveis. Não existe espaço atual para um relacionamento acontecer sem, pelo menos em algum momento, ter passado pela esfera virtual. O jornalista e escritor Carlos Messias em seu livro - Consolação – diz através do seu personagem: “Mais do que uma mulher, eu havia me apaixonado por um perfil das redes sociais.” Em outras palavras, ele construíra um personagem a partir do que acompanhara nas publicações. Este é o novo desafio posto aos internautas.

A aproximação inicial entre pessoas, numa tentativa de conhecimento, sempre se deu por um tempo de projeções maciças quando cada qual vê no outro a imagem do seu próprio desejo e, só depois, consegue desfazer as ilusões criadas pelos seus ideais colocados sobre a superfície lacunar de um saber sobre ele ainda incipiente. Agora um complicador, o ideal do outro exposto nas publicações editadas por ele. Não é surpreendente que a insegurança seja constatada tão frequentemente e os quadros depressivos tão recorrentes.

Saindo da esfera dos relacionamentos, o homem atual é torpedeado por inúmeras informações que o obriga a buscar veracidade em qualquer mensagem recebida. Uma dica importante é sempre verificar a fonte da informação antes de compartilhar. Caso contrário o mundo paralelo criará raízes consistentes. Neste momento lembro-me de Lacan e seu conselho: “Desconfiem, não se deve compreender, depressa demais.” É a partir deste tempo dado ao saber que nos protegemos das grandes desilusões; só que a pressa angustiada  atual que inverte o fim pelo começo empurra todos ao subsolo do infortúnio. 

(*) Psicóloga e psicanalista
e-mail =
ilceaborba@gmail.com

 

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