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Uberaba, 17 de maio de 2022 -

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Transcendência do Natal

Célebre e melodiosa frase que embalará nossa noite natalina, advém do evangelho segundo Lucas: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14 ). Ela abre a mensagem natalina ao seu sentido mais universal, ou seja, a toda a humanidade disposta à boa ação. É uma mensagem linda e pungente a unir todo o gênero humano.

A mensagem do Natal transcende credos, ilumina e inspira nosso cotidiano. Tem o potencial de fazer-nos mais humanos. Em decorrência dela, vemos, neste tempo, a semeadura de atitudes altruístas a revelar que o ser humano é mais que seus desejos e pulsões imediatas. Presenciamos o florescer de sentimentos de solidariedade e perdão.

E não é desconhecido que, para nós, cristãos, quando celebramos o Natal de Jesus, estamos tratando de celebrarmos a encarnação do Filho de Deus (Jo1, 14). Decorre daí, explicitamente que, Deus, ao assumir a nossa humanidade, fez de cada pessoa participante da vida divina. O Deus que assume a humanidade em si mesmo rompe a distinção entre o “sagrado” e o “profano”. Sendo Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, suas atitudes não são separadas, como se em determinado momento ele agisse como Deus e em outro ele agisse como homem. Todas as atitudes de Jesus, em todos os momentos de sua vida, são atitudes concomitantemente humanas e divinas. Portanto, em Jesus, as ações divinas, se tornam humanas e as ações humanas são divinizadas, sendo uma e mesma ação visível (Jo 1,18). Deus Trino, quando assumiu no Filho, a segunda pessoa da Trindade, a nossa condição mortal, fez de nós divinos.

Em razão de tamanha unidade, Deus e o gênero humano, cada pessoa agora é também a face visível de Deus. Por isso, o cristianismo, em inúmeras de suas figuras históricas como São Domingos, se destaca na luta pela dignidade do ser humano. O corpo humano do Filho de Deus, tantas vezes presente entre os excluídos de seu tempo, já desde o seu nascimento que se deu fora da cidade, desprovido até mesmo de uma estalagem e sim numa estrebaria (Lc 2,7), faz com que voltemos o nosso olhar para aqueles que também estão à margem. Hoje, sobraram de uma sociedade que não foi capaz de partilhar e incluir todos os seres humanos, portadores de uma mesma dignidade, nos frutos que a razão e o progresso alcançaram para todos.

O Natal é, portanto, para os cristãos e para toda a família dominicana, um momento de tomada de consciência e reflexão: Deus se faz humano, sem deixar de ser Deus e muitos de nós queremos chegar a Deus, deixando de sermos humanos. O nosso Natal, cristãmente celebrado, então, não deveria ser um momento no qual fica ainda mais marcada a distância entre as pessoas: aquelas que participam de uma mesa festiva muito farta, e aquelas que levam toda uma existência presa por estruturas sociais injustas, dependentes de favores e sujeitas a manipulações diversas, porque somente tomam parte em uma mesa em que há falta.  

(*) Mestre de Noviços, vigário da Paróquia São Domingos, em Uberaba

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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