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Uberaba, 21 de outubro de 2019 -

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Marli Martins de Assis

A vida da gente

“Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas”. Oscar Wilde 

Do folhetim para a vida real. Ou, melhor compreendendo, da vida real para o folhetim. Independe, tudo acaba nas redes sociais. Nos últimos dias nos deparamos com uma exposição frenética de saberes comuns, embalados de ideologias e ideias pré-concebidas, tendo como pano de fundo as cenas novelescas retratando a transexualidade e o poliamor (o relacionamento afetivo/amoroso/sexual entre duas mulheres e um homem). Os saberes especializados estão sendo substituídos. Tudo se reduz sob a perspectiva da moral.

O que não se percebe é que o que está no folhetim compõe a cena real. São representados fragmentos de vivências humanas. Tais fragmentos remetem às subjetividades e intersubjetividades e, nesse contexto, deveriam ser compreendidos para não se cair nas amarras moralistas.

As escolhas sexuais e/ou vivências de gênero não podem se verter ao pensar fundado na moral. Não são elas que desestruturam as dinâmicas familiares e/ou desmoronam a instituição sacramentada do matrimônio. A vida da gente não é só o que aparenta ser e demanda ser compreendida na complexidade.

Quando são atacadas referidas cenas novelescas em rede, vão se estruturando conceitos pervertidos. No contexto, sujeitos são afrontados e agredidos em sua subjetividade. Sim, insistimos em permanecer na sarjeta e incapazes de ver estrelas. Tempos pós-modernos impõem uma mudança paradigmática, com devida atenção, compreensão e respeito às individualidades.

O que nos torna mais humanos é a capacidade de concebermos as semelhanças que nos ligam e que são responsáveis pelos laços que compomos, e não a percepção indiscriminada de nossas diferenças.

A transexualidade está na vida da gente, e não no imaginário social vertido em cenas novelescas. As relações poliafetivas são reais, refletem escolhas permeadas de afeto e implicam também em direitos e obrigações, inclusive legitimados no Direito de Família, em decisões jurisprudenciais.

Do senso comum virilizado em rede, sob performance violenta e destrutuva, penso na promoção dos senhores moralistas, daqueles que comungam um contexto comum de intolerância e fanatismo. Aqui não posso deixar de referenciar Karl Popper, crítico do Relativismo e do “Mito do contexto”, entendendo com ele o quanto é falsa e perigosa a afirmação de que uma discussão racional e produtiva é impossível, a menos que os participantes partilhem um contexto comum de pressupostos básicos ou, pelo menos, tenham acordado em semelhante contexto em vista da discussão.

Isso é o que tentam os senhores moralistas nas redes sociais ao buscar adeptos à sua forma preconceituosa de conceber subjetividades e intersubjetividades. E é o que fazem aqueles outros moralistas que aderem aos discursos de ódio.

Em confronto ao “Mito do contexto”, Popper alertou que, se acolhida sua ideologia de forma generalizada, pode contribuir para o aumento da violência, minando a unidade da humanidade.

E assim persistem muitos, na sarjeta. Não querem ou não podem vislumbrar a complexidade envolvida nas escolhas e na natureza do humano. Insistem na sua permanência na sarjeta por entender que “o inferno são os outros”. 

(*) Psicóloga Judicial, presidente do IBDFAM, núcleo de Uberaba

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