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Uberaba, 16 de outubro de 2019 -

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Julia Castello Goulart

Eu, nós e o céu estrelado

Pouco tempo atrás, decidi ir ao cinema assistir a um dos indicados ao Oscar por melhor ator deste ano, o filme sobre Vincent van Gogh, “No Portal da Eternidade”. O filme não só valeu a pena pela maravilhosa atuação, como saí do cinema com inúmeros pensamentos. Van Gogh era talentoso, isso eu já sabia. Que ele não se encaixava na sociedade da sua época, isso eu também já sabia. Mas nunca tinha refletido de forma mais aprofundada sobre esse se “encaixar”. 

Todos nós buscamos nos encaixar, seja com as pessoas à nossa volta ou, pensando de forma mais complexa, com a sociedade da nossa própria época. Não é positivo, bom e, com certeza, indolor ser excluído, ou se sentir “o diferente”. No livro “Homo Sapiens – Uma breve história da humanidade”, o historiador Harari já problematiza essa questão. Alguns comportamentos já eram “estimulados” e outros, “reprimidos”, como forma de criar um padrão a ser seguido pelos outros, de certo modo, para manter o convívio entre os seres da mesma espécie. Não se engane, não é apenas algo cultural, querer fazer parte do grupo é também intuitivo, da forma mais natural possível do termo.

Duvidem, questionem, polemizem, mas, sim, nós fazemos parte, apesar da evolução, do reino animal. Nosso instinto de sobrevivência nos fazia buscar a aceitação dos outros para que se pudesse fazer parte do grupo. O viver sozinho era muito perigoso. Maior chance de morrer para predadores, por exemplo. E, acredite se quiser, a própria solidão matava e mata. No vídeo intitulado “Loneliness”, do canal do YouTube Kurzgesagt, que recomendo muito, fala sobre isso. Mesmo com tantos avanços na área científica e tecnológica, ainda assim não conseguimos destruir um dos mais temidos “predadores” da nossa espécie: a solidão.

Ok, concordo que, também, podemos dizer que, cada vez mais, indivíduos que antes tinham dificuldade de ser “aceitos” pela sociedade, seja pelos dogmas religiosos, culturais e/ou políticos impostos pela época, hoje já não encontram tantas barreiras. Como no caso dos LGBT e integrantes de determinadas religiões e adeptos de certas ideias. Mas a dor da rejeição e a busca por se encaixar ainda permanecem. Van Gogh, já no seu século, independente das inúmeras teorias sobre os motivos para que não se sentisse aceito, algo me comoveu no filme: foi exatamente por não se encaixar nos padrões que ele se tornou um dos maiores artistas de todos os tempos. Talvez na época, ainda vivo, tenha vendido um único quadro. Contudo, hoje, seus quadros têm valor inestimável.

Isso me remete ao grande conflito de todo esse contexto: Exatamente nas nossas peculiaridades, aquilo que nos faz diferentes, surgem os grandes talentos, as inspirações, as mudanças. Mas, muitas vezes, tentamos reprimi-las e nos enquadrarmos ao padrão, para nos encaixarmos à maioria. Já dizia a música que “ninguém é feliz sozinho”. Por isso é preciso imensa coragem, para expressarmos e colocarmos na prática o que realmente nos faz diferentes. Vincent não era apenas talentoso, mas muito mais do que isso, corajoso.

 

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