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Uberaba, 19 de outubro de 2019 -

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Julia Castello Goulart

Terapia da limpeza

Estava comendo pão francês no meu apartamento. Não quis pegar prato, escolha minha. Errada ou não, deixo aberta à sua interpretação, leitor. As migalhas ficaram no chão. Junto delas aquela famosa poeirinha que São Paulo é craque em fazer e faz bem para quem gosta de ficar ocupado com a limpeza. Não é o meu caso. Decidi, espertamente ou não, passar uma vassourinha no chão e colocar o resto da poeirinha debaixo do tapete. Agora te pergunto, leitor, a poeirinha debaixo do tapete me incomodou? Nem um pouco, afinal, eu não a estava vendo.

Mas se eu esqueci, eis uma coisa que seria mentira afirmar. Toda vez que eu sentava na sala e olhava para o tapete, pensava que ali tinha a poeirinha. E o pior, comecei a criar um mundo de possibilidades que poderia estar acontecendo lá embaixo. Uma delas, se poderia chamar atenção de insetos, que poderiam invadir a minha casa. A questão é: a poeirinha era passado. Mas, por algum assunto íntimo, totalmente meu, ao invés de simplesmente jogá-la fora e enterrar no meu passado, eu apenas a havia escondido.

Eu a escondi de mim própria e ela continuava, por mais que eu escondesse, parte do meu presente. Tá vendo a relação, leitor? Acabei de fazer uma terapia comigo mesma, sentada durante meia hora sem fazer nada no meu sofá. Escondemos coisas do nosso passado de nós mesmos, como a poeirinha debaixo do tapete. Acho realmente incrível quando a pessoa se diz totalmente bem resolvida. Acredito que todos nós temos assuntos mal resolvidos, seja com nós mesmos ou com os outros.

E normalmente esses problemas se tornam poeirinha por dois motivos aparentes: primeiro que queremos escondê-lo de nós mesmos e, segundo, que por algum motivo ou motivos não queremos jogá-lo fora no lixo, não o resolvemos. Discordo quase que totalmente das pessoas que falam que não se deve mexer no passado. 

O passado faz parte de nós e, mesmo que não gostemos ou não nos orgulhemos dele, apesar de doloroso expor as feridas e jogar algo que vai arder a cicatriz, é entender que a poeirinha debaixo do tapete não se tornou algo do passado, já que está escondida de alguma forma no nosso presente. Que a gente exponha, mesmo que só para nós mesmos, a poeirinha debaixo do tapete, para resolver e limpar de vez aquilo que não foi resolvido realmente, para onde ele pertence: para o passado. Depois de toda essa terapia, me levantei e tirei a poeirinha e migalhas debaixo do meu tapete.

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