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Uberaba, 19 de outubro de 2019 -

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Julia Castello Goulart

Nós somos hipócritas

“Fácil é pedir ditadura em uma democracia. Difícil é pedir democracia em uma ditadura.” Não me lembro onde ouvi essa frase pela primeira vez, sei que ela virou uma sentença para mim. Logo que vi brasileiros pedindo internação militar, me lembrei exatamente disso. Não sou do time dos que falam que os brasileiros são todos ruins, o Brasil é horrível, só os Estados Unidos ou a Europa que prestam... não, eu não acredito em massificar adjetivos para uma população tão grande e tão diversa que compõe nosso país. Mas o que se vê muito no Brasil é a normalização da hipocrisia.

Criticamos o governo pela corrupção, sendo que somos corruptos todos os dias nas pequenas ações, nas pequenas causas, que essas sim, quando nos interessam de forma pessoal, merecem ser defendidas. Mas, o que mais impressiona é um país que foi marcado durante vinte e um anos por uma ditadura, iniciada por uma intervenção militar. Parecida, bem parecida, com o que acontece hoje, o governo que estava no poder, no caso de João Goulart, vice-presidente, estava ruim, então vamos colocar os militares, porque esses, sim, vão endireitar o Brasil. Endireitar em todos os sentidos do termo.

Diferente do que muitos pensavam e poucos sabiam é que a intervenção se tornou um período nebuloso da nossa história, porque não gostamos nem mesmo de lembrá-la. Discute-se hoje se deve ou não se falar sobre esse período nas escolas, porque o ocorrido não é considerado um fato para alguns, mas uma perceptiva de um lado político da história. E como nós, brasileiros, que nem mesmo sabemos votar, ainda estamos na “lei do cabresto”, querem que a política, a discussão de política seja retirada das salas de aula. Não só política, mas a filosofia, a sociologia, porque esquecemos que não só da matemática e do português vivem os gênios norte-americanos e europeus que tanto tentamos copiar.

Pede-se intervenção como se não soubéssemos o resultado. Pedimos intervenção militar como se as armas fossem uma forma de manter ordem para um país crescer. Porque sim, desde o surgimento da nossa bandeira, fomos levados a pensar e a aprender que progresso só se obtém pela ordem. Mal sabiam os positivistas daquela época, responsáveis pelo lema que estampam nossas bandeiras, é que nós brasileiros continuaríamos até a atualidade acreditando que só o que é útil é bom. A arte, a cultura, tão ricas no nosso país, são deixadas de lado, porque é mais importante investir em rodovias.

Talvez Mario de Andrade e Oswald se revirem no túmulo pensando que a tão sonhada “antropofagia” foi algo passageiro e momentâneo. Esquecemos tanto de olhar para nós mesmos, o Brasil que tem tanta coisa, tanta gente, tanto conhecimento, nós próprios nos enquadramos como aqueles que dão um “jeitinho brasileiro para tudo”, e acreditem, nem todos dão. Esquecemos que há uns bons séculos nos tornamos independentes como país e nação e que deveríamos construir a nossa história com o que temos de bom e principalmente saber nos autocriticar, para melhorar a partir de falhas que já ocorreram para não se repetir.

Não existe uma única solução para nossos problemas. Mas, já saber a nossa história e o que queremos daqui para frente já seria um grande passo.

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