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Uberaba, 04 de julho de 2022 -

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Por mais faróis amarelos no mundo...

Eu gostaria de compartilhar com vocês algo aquém ou além do meu conhecimento como profissional da área da saúde mental hoje. Aproveitando o viés do Setembro Amarelo, gostaria de escrever nestas linhas algo sobre ser humana e sobre superação, sobre a eterna construção e reconstrução do nosso Ser. 

Engana-se quem acredita que o “mal do século”, a depressão, seja uma forma de sofrimento psíquico do mundo contemporâneo. Desde os primórdios da vida humana, todos nós estamos sujeitos aos dissabores da existência, às dores da “alma”, ao vazio, à tristeza... Alguns de nós, ainda, de forma arrebatadoramente mais profunda.

Muito antes de escolher meu destino como profissional da área da saúde mental e de nascer em mim esse profundo desejo de lutar pela vida, como muitos neste mundo, eu andei pelo “vale da sombra da morte”, e somente aqueles que se aproximaram dele poderão compreender a metáfora que aqui utilizei em sua intensidade.

Não era falta de fé ou de Deus em meu coração, aliás, eu o buscava incansavelmente, intensamente, de todas as formas e em todos os lugares, até um dia encontrá-Lo dentro de mim, através da consciência. Mas não, não era nada disso.

Não era ingratidão, e eu sabia que havia pessoas sofrendo em camas de hospitais, à beira da morte, e que existiam pessoas morrendo de fome pelo mundo inteiro naquele mesmo momento em que eu “sofria sem motivos reais” e sentia culpa por isso.

Não era falta de esforço e nem de força de vontade. Não era egoísmo. Não era “coisa da minha cabeça”, de forma simplista e desabonada.

Não era o “capeta”. Não era loucura. Não era para chamar atenção, não era capricho.

Era uma dor estranha na alma, e sabia lá eu onde eu a havia perdido? – É que nesses espectros da vida sabemos pouco, muito pouco, quase nada ou nada.

Dá vontade de ir embora, de nós ou da vida, de qualquer coisa ou lugar.

Dá vontade de nada.

A depressão em sua maior intensidade parece mesmo um vale, uma erosão, e muitas vezes deixa a sensação de que nossa vida fora dividida em dois horizontes, antes e depois dela. Arrisco concebê-la hoje também, neste viés, como símbolo de possibilidades de transmutação, de transformação e de renascimento. Mas, até que haja esse encontro ou reencontro amar-elo com a vida, fazem-se necessários alguns “suportes” – em verbo e substantivo: é preciso suportá-la, e é preciso de suporte.

Eis a importância do apoio familiar e profissional, da promoção da saúde mental, do conhecimento e de formas de prevenção dos impulsos desesperados de quem vivencia esses sofrimentos. Eis a importância de se afastar do “cale-se”, de falar, mesmo que não haja nada a dizer e, acima de tudo, de ser verdadeiramente compreendido.

Ninguém está efetivamente pronto para sofrer, para perder, para morrer, para enfrentar seus medos ou “monstros” interiores. Na verdade, estamos muito pouco prontos para tudo. Muitas vezes, o que verdadeiramente nos prepara para as batalhas é o irremediável, é a necessidade. É muitas vezes o desespero que nos obriga a revirar nossas gavetas da alma e encontrar a todo custo um ré-médio para aquietar o barulho mental que nos ocupa, que não pode continuar no intenso grave ou agudo.

A PERDA DO SENTIDO PARA A VIDA é a coroa de todas as mentes fadigadas pela escassez do vazio existencial e amordaçadas por toda a tirania da ignorância mundana; é o produto de todas as “verdades” cientificistas e metafísicas impostas e sobrepostas em nós que não nos asseguram mais qualquer garantia. Não simples assim, o autoconhecimento aí liberta, porém, os primeiros jantares românticos com a liberdade são medonhos, apavorantes, transbordantemente solitários, e nós pagamos o preço da vida com coragem, ou vivemos endividados, e fragmentados. Mas a angústia tomará café da manhã conosco antes disso e talvez sairemos para dançar em algum desses dias nublados apenas para nos azucrinar com pensamentos obsessivos de que amanhã temos que acordar cedo. Do mundo externo compramos “ingressos” caros demais e pagamos caro em todas as formas de fuga de nós até que haja “luz”/conhecimento.

Diante e em prol do renascimento, aos novos olhares e às novas vozes dedico este escrito, e aos que não puderam falar sobre suas tristezas. Deste mundo, muitos se foram pela dor do existir e pela insuportabilidade, em verbo e substantivo, do amargo existencial. Desejo que a cada dia mais faróis amarelos se acendam, que a indiferença e a ignorância se tornem escassas. Desejo que haja céu azul depois de dias nublados. Que haja uma grande nuvem de algodão, bem macia, para abraçar aqueles que o desespero lança pelas pontes, torres e prédios todos os dias. Desejo que haja amor. Desejo que a “cura pela fala” possa se convencionar, que o autoconhecimento real possa ser estabelecido em cada um de nós e que espinhos possam ser transmutados em rosas, amar-elos, e outras cores. E, finalmente e delicadamente, que o sentido da vida possa se resumir a posteriori da dor em certa autonomia, em dar sentido próprio à própria vida, em devir, sentir e Ser, em criar e recriar a própria existência. 

(*) Psicóloga
CRP 04/42027

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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