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Uberaba, 04 de julho de 2022 -

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Psicopatologias da Vida Amorosa

O amor sempre nos apresenta diversas faces, faces essas que também dizem algo sobre nós mesmos e sobre nossa vida intrapsíquica. Podemos até mesmo pensar que o amor que doamos ou o que recebemos, ou o que acreditamos receber ou nos faltar, também submerge, em partes, de nossas entranhas psíquicas a partir da relação que estabelecemos com o outro e/ou com os outros desde os primórdios da vida.

Temos, durante todo um contexto sócio-histórico, a construção de um amor idealizado em formas de contos de fadas, com um tal “felizes para sempre” que, na maioria das vezes, nos parece, na realidade, ser possível apenas nas prateleiras, em formato de livros de histórias infantis, filmes de Hollywood, comerciais televisivos, novelas e outros. O que vemos aí é a idealização do amor, da relação amorosa entre duas pessoas como algo que se aproxima do divino e da perfeição. Dessa forma, é possível compreender uma sociedade que, de algumas maneiras, prepara indivíduos desde a infância para que eles se frustrem com a vida adulta no que tange as parcerias amorosas. Além disso, em tempos atuais, de grande desenvolvimento tecnológico, é necessário estender nossa compreensão à emergência de uma sociedade altamente imediatista, adepta ao fast food, ao “ter aqui e agora” e cada vez mais despreparada para lidar com pequenas frustrações da vida cotidiana, muitas vezes por não ter aprendido algo sobre a espera, o silêncio, a convivência e, talvez, sobre a solicitude. Hoje, cartas de amor que eram enviadas do remetente ao destinatário, transpassadas pelo tempo e pela espera, transformaram-se em palavras de “jogo rápido”, enviadas por e-mails, mensagens de WhatsApp, SMS e outros imediatos veículos de comunicação. E isso não desvaloriza as relações, mas as tornam imediatas e, assim, desenvolvem também sujeitos imediatos, adeptos a necessidades instantâneas, nítidos sujeitos da pressa. Também temos assistido em grande escala àquilo que chamamos de “amores líquidos”, instantâneos e de curto prazo de duração.

Constantemente os seres humanos se deparam com um sentimento de vazio, com uma falta que não se sabe exatamente de quê ou por quê. Essa falta é inerente ao sujeito e o incita a buscar “coisas” no meio externo em busca de tamponá-la. Nas relações, essa falta acaba sendo muitas vezes atribuída aos parceiros afetivos, ao qual o sujeito delega sua felicidade ou infelicidade, seu bem-estar ou mal-estar. É possível notar o estabelecimento de um jogo de angústias constante nas relações, tendo em vista que o maior desejo do ser humano é o desejo de ser desejado pelo Outro, seja através do reconhecimento, da admiração ou de qualquer atributo que confirme o legado: “você é amado”.

Temos que levar em consideração que a grande maioria das buscas internas dos sujeitos ainda se encontra nos patamares dos desejos narcísicos do ego, e os sentimentos amorosos acabam por se estabelecer por diversas vias de identificação, idealização, projeção e outras. É importante suscitar que nem sempre aquilo ou aquele(a) que é desejado pelo sujeito, almejado como ideal, é o que lhe garantirá um bem-estar. Constantemente pessoas se deparam com diversas formas de sofrimento oriundas do ato de “amar”, elegem parcerias amorosas que, incessantemente, lhes suscitam inquietudes, ansiedades, desconfortos emocionais, inseguranças, medos e angústias; isto é, parcerias sintomáticas, que afloram nos sujeitos sentimentos que os colocam à prova diante deles mesmos. É comum percebermos também sujeitos que sofrem uma espécie de “queda” da autoestima e do autocuidado quando estabelecem parcerias amorosas, e que passam a instituir laços de dependência por vezes muito intensos. É importante ressaltar aqui que, nesses casos, isso não é fruto de uma escolha consciente e racional, mas pode ser fruto de uma escolha não consciente e carregada de nuances superegoicas (inconscientemente autopunitivas). Há também as transformações daquilo que é denominado “amor” em outros sentimentos que percorrem o ressentimento, a reivindicação, a ira, a raiva, desejo de vingança e outros sentimentos, frutos de delírios narcísicos pouco tangíveis pela consciência. Podemos também constatar que os ciúmes vêm sendo compreendido de formas equivocadas, comumente sendo confundidos com insegurança, baixa autoestima e falta de amor-próprio pelo senso comum e mesmo por alguns profissionais da saúde mental.

A clínica psicológica é um espaço para que os sujeitos desenvolvam conhecimento de seu funcionamento e mecanismos psíquicos; de suas angústias, seus desejos e suas idealizações. Inclusive, é possível compreender também o porquê dentre mais de sete bilhões de pessoas no mundo ama-se “aquela”. Dessa forma, determina-se o estabelecimento de uma vida mais plena em todos os sentidos, inclusive nas parcerias amorosas.  

(*) Psicóloga Clínica
CRP 04/42027

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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