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Uberaba, 20 de setembro de 2021 -

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Sandra de Sousa Batista Abud

Falando de Solidão e Solitude

Estar desacompanhado é estar só?

Querer ficar sozinho é positivo? Sim, querer ficar sozinho é bom, é saudável.

É interessante entender, que antes de estar com alguém, importa muito estar a sós consigo mesmo. Por quê isto? Isto porque, quem não é capaz de criar uma vida concernente consigo, terá dificuldade em compartilhar com outros bons instantes, momentos felizes...

Você nunca desejou ficar sozinho, pensando em algo ou alguém?

Você precisa de companhia para tudo?

Ficar só, ou estar sozinho, é uma atitude completamente normal e saudável.

As relações afetivas passaram por transformações significativas nos tempos modernos. A idéia de que alguém depende da companhia determinada de outrem, que originou-se no Romantismo – “grande movimento intelectual e artístico ocidental, que, a partir do final do século XVIII, fez prevalecerem como princípios estéticos o sentimento sobre a razão, a imaginação sobre o espírito crítico, a originalidade subjetiva sobre as regras estabelecidas pelo Classicismo – doutrina ou tendência (estética, literária, artística, teatral, filosófica etc) que se funda no respeito da tradição clássica e que tem como características os ideais da Antiguidade greco-latina e, ainda, a noção das proporções, o gosto das composições equilibradas, a busca da harmonia das formas e a idealização da realidade – as tradições históricas e nacionais sobre os modelos da Antiguidade, a imaginação sobre o racional ” – não faz sentido nos relacionamentos atuais, onde prevalecem, junto ao prazer da companhia, a individualidade, o respeito, o companheirismo, a confiança... Como acontecia em tempos românticos, a relação de dependência ou de responsabilidade pela felicidade do outro não existe mais. Hoje, existe a parceria, ou seja, uma relação de cumplicidade e respeito à individualidade de todos, onde cada um é parceiro, igual, semelhante, cúmplice, companheiro. Parceria é a relação de amor, de desejo, de companhia do outro, e não de amor, de dependência.

Solidão o que é? Segundo Houaiss, “solidão é o estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só. É isolamento. É sensação ou situação de quem vive afastado do mundo ou isolado em meio a um grupo social”.

E a solidão a dois? Este é o “estado ou condição de duas pessoas, geralmente casadas que, não obstante viverem juntas, não se entendem nem se comunicam uma com a outra”.

E a solitude? Solitude é a oportunidade de experimentar e viver a sua personalidade. É viver individualmente, sem altercação e contestação, sem embate e conflito com companheiros. É poder desfrutar a possibilidade de estar sozinho, porém, com a chance de estar acompanhado quando houver este desejo. A solitude é uma virtude que acontece por escolha do indivíduo, o qual estima estar consigo mesmo, aprecia sua própria companhia e gosta de si. A pessoa escolhe conscientemente estar só ou junto a outro ou outros, sem se poupar do prazer de vivenciar experiências e sentimentos, pois está completa em si mesma, possui conteúdo afetivo para si e para doar e está emocionalmente preparada para qualquer tipo de relacionamento ou para estar consigo.

A solidão, entretanto, significa estar isolado das pessoas, não poder se relacionar, não querer ou não conseguir. O solitário, por uma dificuldade em se relacionar com os outros, não consegue estar acompanhado por muito tempo, ele necessita ficar sozinho, e ele não tem escolha.

Solidão e solitude, etimologicamente, têm o mesmo significado, porém, atualmente, aplica-se sobre o uso destas palavras, diferenças relevantes, como uma conotação negativa à solidão e uma conotação positiva à solitude. O sociólogo Paul Tillich é o criador da palavra solitude. Criou esta palavra para que as pessoas tivessem com que manifestar a alegria, o contentamento e a satisfação de estarem sozinhas por escolha consciente. Pesquisas mostram, que pessoas amadurecidas - mais de 35 anos - que moram sozinhas, têm mais amigos e fazem mais programas com eles. A solitude é positiva, porque se origina na autovalorização e no amor próprio, é facultativa, gosta de compartilhamento, tem muito a oferecer emocionalmente e quando deseja, tem agradáveis companhias ou parceiros.

O ser humano é programado para viver em sociedade – “O homem é um ser social” - o que o leva a temer a solidão e considerá-la negativamente. A Psicologia percebe este fato como constante procura de aprovação, desde que, na imaginação, as pessoas encaram a solidão como reprovação, acham que não são amadas. Engano, porque a reprovação pode se encontrar em qualquer parte.

Assim, a partir do século XXI, passou-se a considerar a solidão como algo que se escolhe - a solitude - o que não significa vergonha alguma e sim, estar bem acompanhado de si.

É importante considerar, que todas as pessoas deveriam, rotineiramente, ficar sozinhas, em diálogo interno e profundo para se descobrir, encontrar a paz e a harmonia de espírito em si mesma. Somente em si é que se encontra esta paz tão desejada e não no outro. Encontrando esta paz, o indivíduo se tornará menos crítico, menos exigente, mais compreensivo com as diferenças individuais, mais saudável, mais feliz. Resgatar, temporariamente, este convívio interno, é necessário.

Solitude é saudável e satisfatória. O que não representa saúde é estar nos extremos, ter a necessidade constante de companhia ou nunca querer estar acompanhado.

Sandra de Sousa Batista Abud é Psicóloga clínica
sandrasba@uol.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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