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Uberaba, 10 de dezembro de 2019 -

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Valdemar Hial

Velhos ou Idosos?

Recebi um artigo do Dr. Evaldo D’Assumpção, meu confrade e ex-presidente da Academia Mineira de Medicina, em que ele faz alguns comentários sobre o artigo da jornalista Eliane Brun, intitulado: “Me chamem de velha”. Nesse artigo ela repudia quem a chama de idosa e exige que a chamem de velha.

Por outro lado, o Dr. Evaldo prefere ser chamado de idoso, e não de velho.

Acabei lendo os dois artigos e achei oportuno transcrever alguns trechos.

Diz Eliane Brun: “Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra de caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera; velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma”.    

     Escreve Dr. Evaldo: “Velho vem do latim vetulus, que significa gasto pelo uso, antiquado, superado. E eu me recuso, nos meus 77 anos de idade (ao contrário da Eliane, que, se bem entendi, diz em seu artigo ainda não ter chegado aos 50), a ser considerado gasto, antiquado. Aliás, é exatamente o que ela também rejeita, só que usando terminologia inadequada. Creio que foi a sua maneira de protestar contra essas besteiras que estão por aí, ou seja, as tais “melhor idade”, “terceira idade”, “idade feliz” e outras patacoadas. Idoso diz somente que somos plenos de idade. Assim como o saudoso é o pleno de saudade, o bondoso é o pleno de bondade e por aí vai. Oso é o sufixo que indica abundância. Creio que não há nada melhor do que – e nisso concordo bem com a Elaine – assumir nossa idade, pois, afinal, muitos anos de vida, se bem vivida, são um troféu que não se pode desmerecer, um tesouro quase sempre arduamente acumulado de sabedoria e discernimento. Portanto, não me chamem de velho, pois não o sou. Idoso, esse título me enobrece e o recebo de bom grado, pois diz exatamente o que sou”.

Analisando os dois artigos, sugiro que passamos a utilizar a palavra “idadoso” (abundância de idade); assim evitaríamos o “ido” (aquele que já foi) da jornalista Eliane e o repúdio de velho do Dr. Evaldo.

Eu, do alto dos meus 75 anos, perdi a noção do que é bondadoso (cheio de bondade), maldadoso (cheio de maldade) e justiçoso (cheio de justiça); só sei que o “Estatuto do Idadoso” não é respeitado, pois aqueles que insistem em não acatá-lo esquecem que um dia poderão chegar lá. Mas para esses eu digo que não basta apenas envelhecer, é necessário ter uma história digna para contar, pois os canalhas, os enganadores, os injustos, os que pisam em sonhos também envelhecem. Há, também, como diz o compositor Mauro Duarte, aqueles que atingem o mais alto degrau da fama, mas com a moral toda enterrada na lama.

Espero terminar a travessia com honra e com o dever cumprido. Abomino aqueles que acham que somos um “peso morto” na sociedade. Esquecem que estão colhendo o que plantamos. Acham que vivemos apenas do passado, mas esquecem que nós construímos o presente e o futuro. Esses senhores, plenos de idade, construíram a cidade que hoje eles usufruem. Mas, como não estamos à cata de reconhecimentos, jamais nos sentimos ofendidos.   

Agora, o que me deixa aborrecido é quando alguém me exala a famosa frase: Oh! Como você está lúcido.

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