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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Independência e modernidade

Duas datas importantes vão exigir nossa atenção em 2022. Não estou me referindo às eleições, embora elas já estejam em pauta e não é de agora. É óbvio que a política vai dominar os debates, acirrar o ânimo belicoso que tem caracterizado a sociedade brasileira desde a segunda década do século XXI e acentuar as divergências que nos mobilizam desde sempre, com sensível piora nos últimos anos.
São duas efemérides da mais alta relevância, mas que devem colaborar para o agravamento dos (des)acordos que nos (des)unem enquanto nação. Certamente, estarão em disputa interpretações, análises, visões e o teor das comemorações. Pelo andar das carruagens que percorrem as estradas esburacadas da atualidade, teremos a visão governamental e outras, inúmeras, que se colocarão em cena, em palco aberto, encenando um espetáculo, que se espera não termine em tragédia – a sociedade brasileira não merece isso.
Vamos abrir o jogo: em 2022, teremos de encarar o bicentenário da Independência e o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Dois acontecimentos que já foram alvo de exaustivos estudos, publicações, teses, exposições, etc. Dois eventos históricos que contribuíram para nos moldar enquanto povo. A Independência nos definiu como país independente de Portugal, colocou-nos no cenário internacional como nação, e não como adendo ou possessão; deixamos de ser colônia para alcançar a maturidade política. De forma simplificada, foi isso o que aconteceu; talvez, não como muitos gostariam – afinal, o Brasil manteve o pior cenário: a escravidão. Além disso, um grupo ligado à metrópole assumiu o comando, com apoio reforçado da oligarquia rural, a mesma classe que se beneficiou durante o período colonial. Rompimentos efetivos, capazes de nos fazer superar os gargalos do passado, nunca se concretizaram. O ambiente social se arrasta pesadamente, quando não retrocede, e mantém o racismo e o machismo arraigados.
A Semana de Arte de 1922 foi justamente uma tentativa de ruptura do quadro cultural e político. O “moderno” aqui foi uma tentativa de superar o passado, uma tentativa de construir, pela via das artes, uma nação autônoma no quadro internacional e nacional. E mais: a Semana influenciou, posteriormente, a política, a ciência, os costumes – como, aliás, as artes costumam fazer, basta reconhecer sua importância. A década de 1920 foi uma época de avanços na educação, trouxe melhorias na ciência, no campo do urbanismo, da saúde pública, do saneamento, etc., e marcou o início da luta pelo voto feminino. Foi a chance de ouro para nos tornarmos de fato um país moderno. O impacto da Semana de 22 ecoa século XX afora e ela chega, agora centenária, ao século XXI. É uma boa hora para refletirmos sobre seu legado e o da Independência. O “problema” que se coloca é: como a sociedade brasileira e as diversas instituições vão fazer isso? Vamos pelo lado ufanista e estéril ou vamos abordar com senso crítico nossas demandas históricas?

Renato Muniz B. Carvalho

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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