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Uberaba, 29 de julho de 2021 -

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

Dar bom-dia a cavalo

Você costuma dar bom-dia a cavalos? Quando uma pessoa fala demais, dizem que dá bom-dia a cavalos. Eu dou bom-dia a cachorros, árvores, passarinhos, minhocas e outros viventes, embora aprecie matutar em silêncio. Outro dia, conversei longamente com um cachorro de rua. Foi inevitável! Eu estava caminhando, distraído, pensando na vida, na pandemia, na política, e, ao passar perto de um cachorro, ele me olhou, eu olhei pra ele, ele começou a me seguir, achei que era uma boa oportunidade de saber mais sobre o mundo cão e iniciamos a conversa descrita a seguir.

Cachorro sem-teto, morador de rua, sua história me comoveu; mas cachorros têm essa capacidade: a de nos comover. O olhar de cão abandonado, de pobre coitado, de carente, é fatal. Nessas horas, muita gente pega e leva pra casa. Não é o meu caso. Mal posso cuidar de mim, quanto mais de cachorros vadios. Opa! Vadio não é a melhor palavra! Não foi isso que eu quis dizer, não quis discriminar ninguém. Em todo caso, melhor refazer a frase: cachorros soltos, perambulando sem eira nem beira pelas cidades. Melhorou? Acho que essa é uma realidade nacional. Se alguém souber de uma única cidade no Brasil onde não existam cachorros vagando nas ruas, me falem. Pelo menos é assim nas cidades dos países pobres, onde também circulam crianças, pedintes, malabaristas de sinaleiros, guardadores de carros, vendedores de bugigangas, pessoas perdidas e outros indivíduos cujo último recurso é a sarjeta.

Voltando ao cachorro, sentados na calçada, trocamos impressões sobre o mundo atual. Se tivesse um pão de queijo comigo, teria oferecido a ele. Neste aspecto, ele disse que a situação estava melhorando: muita gente boa tem colocado água e comida nas portas das casas e assim ele não passa tantas privações. Concordei, é um avanço, mas é pouco. Certas situações demoram a mudar, ele reclamou. Chutes, maus-tratos e até pedradas continuam, como antes. Por quê? Eu não soube responder. As pessoas jamais deveriam maltratar cachorros, outros animais, inclusive gente, árvores, jogar lixo nas ruas, poluir a água, colocar fogo na vegetação, mas a lista começou a ficar longa demais. Paramos por aí.

Ele contou que está preocupado com o aumento da agressividade dos cachorros de pedigree, os que têm casa, dono e coleira. Basta passar alguém na rua, diante de algumas casas, e eles latem cheios de ódio, raivosos. Comentou que já houve casos de ataques a pedestres, entre outras tragédias. Presos atrás de grades, muros altos ou em minúsculos apartamentos, ele tem notado que estão cada vez mais irritados. Seu depoimento, de quem conhece a realidade das ruas, me impressionou. O que leva pacatos cãezinhos, que já foram considerados “o melhor amigo do homem”, a agredir cachorros livres, crianças, carteiros, entregadores, entre outros passantes? O mundo está estranho! Numa coisa concordamos: conversas amigáveis são mais produtivas.

Renato Muniz B. Carvalho

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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