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Uberaba, 28 de outubro de 2020 -

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

A aranha na janela

No cantinho da janela do meu quarto vive uma pequena aranha. Discreta e silenciosa, ela construiu sua teia e eu nem percebi quando foi. Um dia, olhei e lá estava a teia e sua moradora. Pelo visto, é uma aranha caprichosa, pois não faz outra coisa na vida senão cuidar da sua casa. Considerando que é onde ela vive, come, dorme — aranha dorme? —, ela está certa; quem sou eu para questionar.

Ela passa o dia todo, pelo menos quando eu apareço por lá, aparando, cuidando, remendando a teia. À noite, não sei, pois estou dormindo. Amanhece e lá está ela, sempre atenta: remenda, estica, costura, corrige, nem imagino como ela arranja tempo para outros afazeres.

Toda noite, ao fechar a janela, presto atenção para não deixá-la de fora. Essa atitude não faz a menor diferença pra mim, mas faz para ela. Imaginem passar a noite de fora, no frio, sujeita a predadores, na chuva! Não, não farei isso com ela.

Por que eu não a tiro do cantinho da janela? Por que não varrer a teia, acabar com aquela invasão? Eu cheguei antes, é minha casa, meu espaço, assim como todos os cantinhos, frestas, buracos, nichos, estejam ou não ocupados por formigas, lagartixas ou aranhas e outros bichos. Eu pago impostos, condomínio, energia elétrica, água, gás… Arranchou ali e nem me perguntou se podia ficar, por isso, às vezes tenho vontade de varrer sua teia pra longe. Num golpe só, uma vassourada bem dada, de surpresa.

Então, por que eu não a removo dali? Porque eu não preciso fazê-lo. Porque eu não tenho de demonstrar poder e força; não preciso dizer ao mundo quem manda no cantinho da janela. Qual seria o sentido desse ato autoritário? Ela não é uma ameaça à minha integridade, ao meu lar, à minha posição no mundo. Questão de estética? De higiene? Quais seriam os motivos para remoção da teia e eliminação da aranha? Se ela fosse venenosa já teria me picado, eu investiguei. Não tenho motivos.

Outro dia, vi que ela capturou um mosquito. Ele se debateu, balançou a teia, mas não conseguiu se soltar. Isso significa que ela tem comida para alguns dias. Significa que ela ajuda no controle de insetos, mas não estou interessado na utilidade de sua existência, animais não são objetos; pensar assim seria uma postura egoísta.

Pensei em conversar com ela, mas aí um de nós dois seria considerado maluco. Não vou me arriscar, cada um na sua. Sei que muita gente vai me criticar, vai me chamar de doido ou de excêntrico, entre outros nomes feios. Qual é? Só porque eu não vejo motivos para exercer algum grau de intolerância? Demonstrar força e pretensa superioridade vai nos levar aonde? Vai revelar nossas fraquezas? Nosso fanatismo e neuroses? Deixa ela quieta, o mundo tem espaço suficiente para todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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