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Uberaba, 22 de outubro de 2020 -

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

Para servir de exemplo

Tomar um cafezinho quente e cheiroso estimula a memória e atiça a saudade. A gente conta histórias, olha pra fora desinteressado, observa as nuvens, verifica se o tempo está correndo mais devagar ou mais depressa, analisa se vai chover ou esfriar… Mesmo que isso não tenha importância ou não faça sentido para uns e outros, o fato é que tudo vira motivo de conversa, a gente aproveita pra saber da vida dos outros, pra contar um causo e tocar a vida com mais sabor. 

Tem hora que não temos nada para fazer. Nessas horas, é melhor não complicar, não caçar sarna para se coçar, como dizia o povo antigo — será que ainda existe sarna? Não ter o que fazer pode ser sinal de preguiça, falta de criatividade, mas é instrutivo, nos anima a pensar. Tem hora que a gente fica com vontade de tomar café com pão de queijo, principalmente quando oferecem de um jeito bem mineiro, já advertindo: “Você não pode recusar”. De fato, certas coisas não se recusam. Outras devem ser recusadas.

Falando nisso, me lembrei de um parente, fazendeiro famoso na região. Um dia, ele comprou um lote de cabritos. Segundo o próprio, no começo tudo correu bem, mas não demorou e os cabritinhos aprontaram uma bagunça danada no quintal da fazenda. Sabe aqueles quintais imensos, cheios de árvores frutíferas? Pois é, comeram as cascas das árvores, invadiram a horta de couves, sujaram a represa dos peixes, arrombaram o depósito de sal e o escambau. Aí, o parente, irritado, tomou uma medida extrema. Reuniu toda a cabritada no curral, pegou aquele que ele julgava ser o chefe da turma, o mais espevitado, pendurou pelo pescoço e sacrificou o pobre coitado. O pior: obrigou os demais a ficarem ali, olhando aquela deplorável cena até o final.

Mais tarde, de volta à cidade, passou em casa para conversar com meu pai e para nos trazer de presente um pernil de cabrito. Foi quando nos contou a façanha, orgulhoso do feito: “ensinou os cabritos a se comportarem”. Sua expectativa era que os cabritos deixassem de fazer bagunça dali em diante. Ainda bem que o fulano não tinha filhos, foi o que pensamos. Meus irmãos e eu nos recusamos a comer aquele pernil, para espanto da minha tia, que nos considerava um verdadeiro bando de trogloditas esfomeados.

Vez ou outra, quando não tenho nada pra fazer, me recordo de histórias ocorridas muitos anos atrás. Por que parte da sociedade brasileira não consegue deixar para trás resquícios deploráveis dos tempos coloniais? Por que alguns, que se julgam bastante cultos e iluminados, insistem em considerar os outros como seres inferiores e lhes impõem castigos? Que pergunta ingênua, senhor escritor desta crônica! Não digo mais nada, só lembrei-me de uma história acontecida no passado. Melhor ficar quieto, senão quem corre o risco de enforcamento sou eu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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