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Uberaba, 22 de outubro de 2020 -

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

Livros proibidos

Renato Muniz B. Carvalho

Há bastante tempo, a leitura de livros faz parte da vida das pessoas. Quando digo bastante tempo, põe tempo nisso! No Egito, a famosa Biblioteca de Alexandria, por exemplo, que chegou a ter cerca de setecentos mil volumes, foi criada no século III a.C. Pensadores importantes, como o geógrafo Estrabão, realizaram estudos a partir do material existente nela. Consta que abrigava inúmeros livros de astronomia, engenharia, geometria, estudos a respeito de Hipócrates, o “pai da Medicina”, além de obras do teatro grego, poesia e outros gêneros literários; uma riqueza única. O descaso das autoridades, o fanatismo religioso e questões político-militares levaram à sua decadência - além de um incêndio que destruiu grande parte do acervo. No início do século XXI, fruto de parceria do governo do Egito com a Unesco, uma nova biblioteca de Alexandria foi construída. Livros e bibliotecas existem interligados aos contextos históricos, econômicos e sociais.

Devo confessar aos leitores que minha relação com livros sempre foi de entusiasmo, de magia, de espanto e outras emoções relacionadas à admiração. Será que esses sentimentos obscurecem minha avaliação sobre os assuntos ligados a eles? Sei lá! Durante minha infância, tive pleno acesso aos livros e às bibliotecas. A dos meus pais ultrapassava cinco mil livros, embora eu nunca tenha conferido. Devia ter… Ocupava o principal cômodo da casa. Era uma das maiores bibliotecas da cidade. Passávamos horas ali!

Mas conheci muitas famílias em cuja casa não existia um livro sequer. Em algumas, não havia lápis, canetas nem papéis. Deixar um recado escrito era uma dificuldade, só se fosse num papel de embrulhar pão. Sim, nos anos 1960, pão vinha embrulhado em papel, carne vinha embrulhada em jornal, leite vinha em garrafas de vidro…

Eu tive uns amigos que não tinham permissão para ler livros. Achava aquilo muito triste, ficava intrigado, abismado, principalmente por causa da irmã deles, minha amiga também. É que pra ela a proibição era mais rigorosa. Meus amigos contornavam a proibição, mas ela não. Talvez tivesse medo de desobedecer aos pais. Todos foram à escola, aprenderam a ler, a escrever, a fazer contas, mas não podiam ler livros. A casa deles tinha uma enciclopédia novinha, cadernos de receitas e uma imensa Bíblia sobre um pedestal, sempre aberta na mesma página. O pai lia jornais, mas jogava fora no mesmo dia, ou usava para embrulhar o cocô do gatinho, vai saber!

O tempo e a vida nos afastaram, mas eu soube que a moça sofria de imensa amargura, talvez depressão. Casou-se, teve filhos; não sei se teve muitos momentos de felicidade. Será que os livros lhe fizeram falta? Não vamos forçar a barra, pode ter sido outro fator, mas que os livros teriam feito bem a ela não tenho dúvidas. Impedir o acesso aos livros significa queimar bibliotecas: produz retrocessos, promove o obscurantismo, entristece a vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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