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Uberaba, 23 de outubro de 2020 -

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

O ano que não existiu

Já tivemos ano que não terminou, ano que não começou e até ano que demorou a ir embora. O ano de 2020 deverá ser lembrado como o ano que não existiu. É simples: mal acabou o Carnaval, veio a pandemia e parou tudo, aliás, já estava quase parado. As pessoas foram pra casa, lojas fecharam as portas, as escolas dispensaram os alunos e mandaram os professores gravarem vídeos. Por pouco não se interromperam os cursos d’água, pois nem as gotas de chuva queriam chegar ao solo. O medo tomou conta de toda a gente, a esperança cedeu lugar à ignorância. A história entrou em recesso, cruzou os braços e fechou os olhos.

Sem saber o que fazer, os governantes impediram o acesso aos parques, às praças e às praias. Era inevitável! Proibiram os cinemas, os teatros, os shows de música e os bares. Sem público e sem apoio, calaram-se os artistas, para tristeza geral. As pessoas em casa tiveram de reaprender a cozinhar, a lavar a louça, a espanar a poeira e a varrer, apesar de algumas se mostrarem terrivelmente incompetentes nesses afazeres.

Difícil foi reaprender a ler e a escolher leituras. Para tentar ajudar, muitas pessoas publicaram listas de livros, outros ressuscitaram discos e filmes antigos. As plataformas de filmes, séries, programas de entretenimento, entrevistas e debates fizeram sucesso. Prova maior de que o ano não existiu foi a grande quantidade de reprises que inundou a TV. As viagens foram proibidas, cidades levantaram barreiras, países fecharam suas fronteiras. Automóveis estragaram nas garagens sem ter quem os ligassem. Com os aeroportos fechados, os aviões enferrujaram.

Excluído o ano, muitos deixaram de fazer coisas que sempre prezaram: abraços, beijos, festas, confraternizações. Nunca a ausência de um ano foi tão prejudicial ao entendimento humano e à consumação do amor. Que falta faz um ano! Fico pensando: como vão explicar este ano excluído? Será um buraco? Pularemos o ano e vamos direto para o próximo? Complicou-se a vida dos estudiosos que se dedicarão a isso no futuro.

Se soubéssemos que tudo isso iria acontecer, teríamos investido mais em pesquisa, em ciência, em programas de estímulo à leitura e à discussão de livros, em cursos de arte e, principalmente, em cursos de formação política? Não adianta chorar o leite derramado ou, melhor dizendo, o ano em que derramamos lágrimas por milhares de mortos, o ano em que tanto lamentamos as péssimas escolhas políticas.

Só o cara que vende pamonhas, “a melhor pamonha da cidade, pamonha da roça, pamonha de doce e pamonha de sal”, não parou. Para ele, o ano existiu, ele continuou vendendo suas pamonhas como se um ano fosse igual ao outro, como se não fizesse a menor diferença. Vai vender pamonhas até a eternidade, enquanto existirem espigas de milho e gente que goste de pamonhas. Quanto a nós... 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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