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Uberaba, 22 de outubro de 2019 -

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

As dez pragas

Segundo dizem, as dez pragas do Egito foram catástrofes ambientais enviadas pelo Deus de Israel para castigar o Faraó do Egito e forçá-lo a libertar hebreus escravizados. Como não conseguiu evitar as pragas, o Faraó foi desmoralizado e aceitou as condições impostas para a libertação dos hebreus. Existem várias teorias que tentam explicar as pragas fora do âmbito religioso, tais como a erupção de um vulcão e sucessivos desequilíbrios ecológicos. São questões relevantes, mas paro por aqui na tentativa de entender as pragas do passado. Minha preocupação no momento refere-se às pragas da atualidade. Tudo indica que estamos vivendo uma situação semelhante. 

Guardadas as inúmeras diferenças de interpretação e de redação, só para conhecimento dos leitores, as dez pragas do Egito foram: I) a transformação da água em sangue; II) a multiplicação excessiva das rãs; III) uma grave infestação de piolhos; IV) a proliferação de moscas; V) pestes que acometeram os rebanhos; VI) feridas que afligiram as pessoas; VII) chuvas de pedras; VIII) a praga de gafanhotos; IX) a escuridão; X) a morte dos primogênitos. Foi praga com vontade!

Num sentido socioambiental, nota-se, nitidamente, a relação entre a sociedade e a natureza no processo. As pragas caracterizaram-se como catástrofes ecológicas, sem dúvida, independente do poder divino em desencadeá-las. Pode-se, também, fazer um exercício de aproximação e identificá-las com algumas ocorrências recentes: a poluição dos rios e o rompimento de barragens com a transformação da água em sangue; a proliferação de moscas e mosquitos com as incontáveis mortes relacionadas à dengue, à febre amarela etc.; o combate às pragas com o uso de agrotóxicos, causa de tantos dissabores, com doenças, mortes e a medicalização exagerada; as tragédias relacionadas aos desequilíbrios climáticos com os deslizamentos de encostas e às inundações; a escuridão intelectual com o ódio, etc. Será que fizemos por merecer algum castigo divino ou ambiental? Que cada um interprete como quiser!

Então, eu resolvi fazer a minha listinha das dez pragas da atualidade: I) conversar durante a exibição de um filme; II) atirar lixo nas vias públicas; III) o elogio da estupidez e a negação dos livros; IV) a ignorância política; V) xingar, atropelar ciclistas e falar mal de ciclovias; VI) acreditar que tem esquerdista escondido debaixo da cama; VII) jogar bituca de cigarro em todos os lugares do planeta; VIII) o machismo, o feminicídio, o racismo, a homofobia e todas as formas de discriminação; IX) a deformação e a negação do passado; X) a caixinha de som portátil em alto volume em parques e praias. 

Os leitores e as leitoras podem discordar, propor sua própria listinha, sem problemas. Fiquem à vontade! Da minha parte, é o que enxergo. Há, entretanto, um dado curioso: um dos objetivos a serem alcançados com as pragas era a humilhação do Faraó. Hoje, o resultado é a humilhação da sociedade e seu inevitável retrocesso. Muito triste!

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