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Uberaba, 21 de junho de 2021 -

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Ricardo Cavalcante Motta

A voz marcante de Cauby soava em tom melancólico que ela, algo embriagada, após cantar intensamente, chorou no camarim do cabaré, e até sentiu dó de si. Eram duas em um só ser. A externa maquiada e bela a observar com dó seu sincero ser sofrer calado, embora a euforia de todos os aplausos.

Dó.

Não sinta dó de ninguém. Não tenha essa ousadia, esse atrevimento, essa arrogância, talvez seja até ignorância. Quem somos para ter audácia de ter dó de alguém se nem mesmo temos ciência ou domínio dos males que temos. Ocultos ou ocultados eles podem ser muitos. Caso venha em si um sentimento de dó, que enfrente senti-lo de si mesmo, mas, ainda assim, não se deve parar nele.

Tome esse momento de profundeza, à base do precipício, como o primeiro instante de virar de rumo para cima, para vencer sua lástima de dor que gerou dó de si mesmo. Mas somente de si pode atrever sentir dó. A ninguém é dado sentir dó de outrem sem que concretize a augusta falácia de negar as imperfeiçoes do próprio ser. Ninguém tem pureza suficiente e capaz para sentir dó de outrem. É a compaixão que abriga o sentimento fraterno de comunhão da dor ou da desgraça alheia, não dó.

Então, sentir dó de alguém é negar comunhão cristã, pelo conforto fugaz de se sentir superior, abrigado por um privilégio divino estático, como que fosse filho mais amado que o irmão. Entretanto, se, enfim, chegar ao ponto de sentir dó de si, ajoelha, olhe para os céus, volte o pensamento em oração para seu miolo em reflexo. Creia. Recomece. Abra um diálogo tríplice entre você, seu interior e os céus, para que seja esse sentimento a semente do novo alvorecer. Então, aí, levante-se e siga sem dó.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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