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Uberaba, 15 de maio de 2021 -

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Ricardo Cavalcante Motta

Lembranças

Recordando-se tanto das alegrias da infância, resolveu, já depois de anos, retornar à casa da fazenda onde viveu o semear de seus maiores sonhos. Ali onde seus principais heróis surgiram, seus ídolos. Lugar onde tudo parecia tão definitivo na glória, no prazer, na proteção e na amizade, onde vigorava o aconchego familiar. Tomou seu carro, avisou à tia, já viúva do vitorioso tio, seu modelo e referência. Para lá partiu, na esperança de absorver daquele clima, daquele tempo em que tudo tinha a beleza inocente por seu olhar infantil. De tudo foi feito para que houvesse a melhor recepção, da culinária aos agradáveis lençóis. Mas somente o zelo da anfitriã era tal qual outrora. De plano, ao avistar a casa, esta parecia menor. Já não guardava o mesmo vigor e imponência. A cerca, que era rica em madeira, com largas lascas enfileiradas de aroeiras e baraúnas, já trazia sensíveis falhas, sinais da atualidade, diferentes da pujança dos outros tempos. Os jardins não externavam tanta alegria. No contexto, não se projetava mais a expressão da esperança. Afinal, quando crianças, não temos passado a olhar, quando idosos, como a tia de agora, não há significativo futuro para sonhar. Na meia-idade há que se temperar a vida enquanto permanece algum projeto a se mirar. Algo depois, foi à saudosa cachoeira. Era o lugar das ocasiões mais divertidas. Ao se aproximar, sentiu falta daquele excitante frio na barriga, pelo receio de se afogar. Também a cachoeira pareceu menor, sem muito efeito do seu soar. Sentou-se. Fechou os olhos. Começou a urdir seus sentimentos. Entendeu que não bastaria o mesmo cenário para se repetir o enredo do drama. Não havia mais os insubstituíveis atores da sua saudosa infância. Partiram aqueles personagens vivos que outrora tanta felicidade faziam brotar com abundância. A vida daquele tempo só permaneceria viva enquanto um coração pujante ainda dela se lembrasse. Não adiantaria se apoiar no lugar, nos móveis, nas construções se ali não mais se conservaram aquelas pessoas, almas de amor, para realizar e mover a vida viva, como daquele tempo passado, naquele espaço que se tornou apenas o cenário de parte do filme de um tempo da vida que ficou para trás. Ficaram o eco dos sons que vinham em pensamento e tornaram-se boas recordações da base de sua formação. A visita em si, algo vazia, revelou-se, em paradoxo, uma doce melancolia. Resolveu não voltar mais ali, senão em lembranças. Estas é que quis guardar em seu coração e com especial afeto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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