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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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O que aprendi com Dr. Guerra

Conheço e utilizo, de vez em quando, um texto intitulado “Os que fazem a diferença”. Ele fala sobre um velho professor de Medicina que, certo dia, ao chamar a atenção de uma turma barulhenta na volta das férias, disse-lhe que havia observado vida afora que, de todos os alunos que passaram por ele, somente 3% fizeram a diferença. E foi mais longe, exemplificando que em todas as profissões essa mesma estatística não é difícil de ser constatada. Professores tive muitos, mas Mestres foram poucos e Guerra foi um deles. Ele entrou em minha vida durante o curso de graduação no início da década de 80, numa época em que TDAH, Autismo e distúrbios neurológicos não eram de domínio público. Ele, com sua forma de ser, nos fascinou tanto que foi escolhido como paraninfo de nossa turma, a XV de Psicologia da Uniube/dezembro de 1983.

Fiz terapia alguns anos depois com uma profissional que trabalhava em um consultório situado na casa do Guerra e isso me obrigava a frequentá-la semanalmente. Era uma casa muito engraçada, que, ao contrário do que diz a música, tinha porta, mas estava sempre aberta e isso significava que não precisava bater para ter acesso ao interior da mesma e aos seus livros, que estavam sempre disponíveis para nós, seus alunos.

Profissionalmente, nossos caminhos se cruzaram por muitas e muitas vezes numa causa comum: as crianças com dificuldades de aprendizagem. E nestas voltas da vida aprendi tanta coisa com ele, que fica difícil caber nesse espaço.

Aprendi que um professor não precisa ridicularizar seus alunos em nenhuma situação. Certa vez, uma colega de sala havia puxado um fuminho em dia de prova e ele, com toda sua experiência, devia saber o que era, mas se fez de desentendido e chegou até ela, deitada na carteira, e perguntou se estava passando mal e se queria fazer a prova noutro dia...


Aprendi, tecnicamente, a fazer o Estudo de Caso de uma criança com problemas escolares muito antes de se falar em Psicopedagogia por aqui.

Aprendi que o conhecimento deve ser buscado durante toda uma vida, se quisermos ser profissionais de excelência, e que, se um dia chegarmos a sê-lo, isso não nos dá o direito de sermos presunçosos e arrogantes.

Aprendi que nós, os mais velhos, devemos ser muito generosos com os novos profissionais, se não quisermos que o nosso saber seja sepultado junto com nosso corpo.
Aprendi que nosso espaço de trabalho e nosso acervo pessoal podem ser colocados à disposição do coletivo sem prejuízo de nossa intimidade, se soubermos trabalhar com os devidos limites.

Aprendi que um profissional pode ser bem-sucedido sem abrir mão da Responsabilidade Social, ou seja, não precisa ser movido somente pelo interesse financeiro. Quantos trabalhos Guerra fez por amor!

Aprendi que atendimento humanizado e empatia, entendendo como tal o respeito à história de cada um, deve ser a máxima de nossa atuação.

Não sei se Guerra tinha religião e nem se foi em algum momento afiliado a uma agremiação Clube de Serviço. Imagino que não; ele era grande demais para caber em qualquer um deles por mais nobre que fosse, mas ainda assim praticou o Evangelho ao praticar o Bem por onde passou.

Parando para escrever estas linhas, compreendo por que não quis ir ao seu velório. Penso que, no seu caso, preferi ficar com as lembranças vivas de nossas muitas conversas e trocas de ideias de corredores ou reuniões e me despedir, com muita gratidão, no recôndito do meu coração.

Soube que você foi muito em Paz, Mestre.
Leve consigo parte da Luz que você espalhou por aqui ao cumprir sua missão e, com certeza, ela o guiará ao encontro da Luz Maior e definitiva.

Vera Lúcia Dias
Terapeuta do Luto, mestre em Psicologia e presidente do Instituto Renovare/Cemae (Centro de Estudos Sobre a Morte e Apoio a Enlutados)
 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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