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Uberaba, 23 de outubro de 2019 -

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Marília Andrade Montes Cordeiro

O que se faz no escuro?

“Lampião de gás, lampião de gás! Quanta saudade você me traz!”

Na verdade, nem era a gás. Era querosene mesmo!

E papai tinha um cuidado danado com ele. Só ele podia carregá-lo, senão deixávamos que a rajada de vento queimasse a camisinha e haja perigo! Além do que quase nunca tínhamos uma de reserva e então ficávamos no escuro por muito tempo.

Sobrevivemos a mais esse perigo, e que delícia eram as noites ao redor de um lampião!

Essas doces lembranças me retornaram com a recente tempestade de ventos a 80 quilômetros por hora que assombrou nossa Uberaba.

E no alto de nosso décimo primeiro andar, parecia que tudo ia explodir. Nuvens negras e densas de poeira contornavam a cidade.

Blindex batendo, parabólicas voando, um ou outro pássaro desavisado tentando fazer seu retorno para o ninho e de repente um estouro e a luz se apaga! O bairro inteiro no escuro!

Lanternas de celulares a postos, vamos à procura de velas. Sei lá quanto tempo isso vai demorar! E o pior é que metade da família não está em casa. Será que vai ter energia, então? Primeira experiência da falta de energia morando no alto.

Como a TV virou um vício! Numa rotina normal, cada um estava no seu mundo, quieto num canto. As velas estão muito poucas. Gastar celular, nem pensar.

Como passar o tempo no escuro? Conversar é bom, mas somos péssimas de prosa, assim, sem nem um aditivo. E hoje ainda é segunda. Ah, me lembrei da lanterna elétrica. Será que está carregada? Não! Mais atenção da próxima vez. Agora vamos brincar com a luz bruxuleante. Fazer formas na parede e cada uma descobre o que a outra desenha.

Cantar e batucar também! Recordar as gostosas estórias de outrora. Comer! Vamos para a cozinha. Isso já está ficando divertido! Hoje tudo é exceção. Então, só uma tacinha de vinho. Afinal, já faz 30 minutos que estamos tentando nos distrair....

E Jack está muito assustado com essa luz bêbada. Pegue ele no colo.

Eis que após longos 40 minutos, faz-se a luz!

Ufa, já estava até achando bom! E cheguei à conclusão de que nosso belo lampião de outrora foi um forte aliado para minha família de cinco irmãos. Tudo na penumbra, à média luz... Época em que camisinha só era usada no lampião a gás!

Pena que no outro dia fiquei sabendo que alguns bairros ficaram a noite toda sem energia. Algumas casas até por 30 horas!

Haja transtorno, paciência e perdas! Espero que tenham sido apenas perdas materiais. Esse descuido das operadoras não poderia acontecer em pleno século XXI.

Minha experiência acabou sendo divertida. O que me faz relembrar: em situações adversas e estranhas, não entre em pânico. Não perca a paciência e o humor. Esteja disponível e olhe ao redor. Sempre haverá alguém em pior situação.

Tudo anda acontecendo tão rápido, que é melhor nem perder tempo com lástimas e lamúrias. Melhor ir à luta com determinação. 

(*) Mãe de família

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