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Uberaba, 23 de outubro de 2019 -

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Tharsis Bastos

Diário do hospício

Sou o mais puro da aldeia.

Brasileiro daqueles que lotam as UPAs, as UBSs e os prontos-socorros nos dias úteis, deixando-os quase às moscas nos feriados e fins de semana.
Sou brasileiro daqueles que quando o motorista da carreta está estirado no chão, esvaindo-se em sangue, após o tombamento estrondoso, eu corro para ajudar a aliviá-lo da carga, rapinando tudo que está espalhado pela pista.

Brasileiro que não tem a menor vergonha de entrar em um supermercado e, caso a oportunidade se instale, meter a mão na prateleira e surrupiar tudo o que for possível.

Brasileiro que arremete o carro sobre pedestre nas ruas (e ainda xinga o transeunte!); que dá espingarda de pressão e ensina o filho a matar passarinho; que vai a estádio de futebol com a firme intenção de arranjar uma boa briga...

Sou daqueles que postam mensagens de proteção à natureza, mas jogo lixo na rua quando não tem ninguém olhando. Daqueles que pegam em armas caso mexam com minha irmã, mas que canto a vizinha sistematicamente no elevador.

Sou o exemplar da raça, aquele que se senta à frente do chefe com a cabeça abaixada e fala manso, baixinho; mas que sai dali e “cresce” para cima de um trocador de ônibus ou humilha um lavador de carros.

Sou bem o tipo que faz questão de levar vantagem em tudo, ainda que essa vantagem implique em prejuízos ou sofrimento de terceiros. O tipinho que uma vez estando provido de seu colete salva-vidas, pouco se importa com o destino do barco e demais passageiros.

Sim, sou brasileiro! Assim fui criado, assim me ensinaram. E caso me chamem a atenção para que seja um pouco menos indecoroso, um pouco mais ético, o mais provável é que mande um ou dois para aquele lugar bem feio!

Quando a banda soa e a flâmula sobe no mastro, dá certo nó na garganta. Poxa, como meu Hino é o mais bonito! Mas se a vontade de urinar apertar um pouco, o Hino que se dane. Cadê o sanitário?

Afago a cabeça de meu filho com amor e ternura, os olhos me enchem de água nas suas apresentações escolares; mas não vacilo um minuto em processar professores ou diretores pelos mais comezinhos motivos. Na escola ele aprende o alfabeto. Educação sou eu que dou, em casa!

Aliás, minha casa, meu lar é um senhor centro educativo! É um laboratório espetacular de brasilidades. Aplico ímã em hidrômetro de água; a energia é surrupiada do poste num moderno e criativo gato; na sala, minha TV conversa com 800 canais, tudo numa sofisticada e ao mesmo tempo emaranhada pirataria, que se estende para os CDs e vídeos.

E quando me encontro com os amigos nas rodas de boteco, discutimos a bandidagem e a falta de ética desses políticos!

Detesto qualquer conversa ou programa que seja voltado para a instrução ou cultura, porém sou capaz de meter a mão na fuça de quem fizer barulho durante a novela!

Sou eu, aquele mesmo que você todos os dias vê furando o semáforo, roncando o motor da moto numa loucura esvoaçante; ribombando o som do carro muitos decibéis acima da sanidade mental...

Sou o Zé, a Maria das quantas... sou este país. E canto!

Dá-lhe, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!

(*) Tharsis Bastos
Jornalista

 

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