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Uberaba, 21 de outubro de 2019 -

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Maria Aparecida Alves de Brito

O tempo e a modernidade

Precisei lançar mão dos fiapos de lembranças da minha juventude, guardados no meu imaginário, para recriar um cenário de fatos que tanto me encantou numa época passada e que, somente o coração, que não envelhece nunca, pôde guardar. Um tempo de inquietação, curiosidade e encantamento. Um tempo onde os jovens eram irrequietos e francos, que gostavam de experimentar, de se aventurar. No caso, a avenida era a Leopoldino de Oliveira, o corregozinho lento e silencioso que a cortava era o córrego das Lajes, que naquele tempo, ainda não era canalizado e nem tampouco poluído. Havia uma mureta alta, onde os jovens se sentavam para admirar as lindas mocinhas que desfilavam os belos modelitos da época. As paqueras faziam toda a diferença. Os olhares eram as mensagens que alcançavam os corações, e ali eram escolhidos, com o consenso de ambos, os lugares em que iriam se sentar dentro do cinema, assim que a sessão começasse, no apagar das luzes. O lanterninha, ah o lanterninha, com seu traje a rigor, cuidava para que um beijinho roubado, ou um carinho mais afoito não ocorresse. Desde aquela época, inúmeras e marcantes modificações aconteceram na cidade. E tragado pela modernidade sem limite, os shoppings oferecem praças de alimentação, hotéis de luxo com suítes privativas e cinemas em 3D. E o nosso querido cine Metrópole perdeu, para alguns, sua razão de ser. E todo aquele belíssimo complexo, que conta muito da nossa história, e dos homens empreendedores e visionários daquele tempo, se transformará, em breve, num frio e insignificante estacionamento. A minha vontade e a de muitas outras tantas pessoas ligadas à cultura, às artes, à beleza, seria que tudo aquilo, hoje transformado em entulho, fosse remodelado e devolvido à população em forma de um lindo e modernizado teatro, como fazem os países que respeitam e cultuam seus patrimônios. Então percebo que, ao nos transformarmos em gente grande, os nossos sonhos ficam distantes, pairados em algum lugar no tempo, como uma brisa fresca que passou e que não somos mais donos deles. Mas, o que eu vi e vivenciei permanecerá eterno, sempre que eu empreender uma viagem para dentro de mim mesma. Já, as futuras gerações, não terão esse privilégio, e terão que se conformar com a perda de uma parte inestimável da identidade da história da nossa cidade. Restará, como consolo, uma foto amarelecida pelo tempo, guardada em alguma gaveta do Arquivo Público Municipal, como forma de perenidade de algo que foi altamente significativo e determinantemente corajoso para os padrões da época.

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