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Uberaba, 16 de maio de 2022 -

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Procura obstinada de um tesouro escondido

A Universidade Popular Juvenal Arduini (Upopja) não é espaço físico acadêmico, é um movimento promotor de reflexões e ações que contribuem para o tecido humanitarista da destinação antropológica. Nesse sentido, alinha-se ao pensamento do seu patrono, cuja morte completará 10 anos em 2022. A Upop agrega pessoas voluntárias de formações variadas, residentes em Uberaba ou fora. Atualmente, realiza atividades virtuais, como círculo de estudo sobre a obra de Juvenal Arduini, saraus, lives temáticas. Também, prepara a publicação de um documento sobre o teólogo, filósofo, educador, escritor proposto pelo psiquiatra Jorge Bichuetti, idealizador da Upop. É uma coletânea com análise bibliográfica (resenhas de 14 obras autorais do período 1961-2013) e fortuna crítica; artigos; depoimentos; recortes de entrevistas. Reúne colaborações de integrantes da Upop, de convidados e citações de fontes já publicadas sobre o autor, e possibilitará novo diálogo dos leitores com o legado humanista, muito atual, de Arduini.

Apenas a revista do Arquivo Público de Uberaba, de 1992, especial sobre o intelectual e religioso, registra seu primeiro título autoral, “Promoção agrária”, de 1961. Era necessário localizar essa edição esgotada, para não ficar lacuna nas resenhas. A procura obstinada contou com várias pessoas em pesquisa por telefone, internet, contato direto com o círculo de relações de Juvenal Arduini: parentes; amigos/as; religiosos/as; ex-alunos/as e ex-colegas; frequentadores da Missa dos Universitários... Ampla consulta em Uberaba e região abarcou espaços como museus; arquivo público; bibliotecas públicas (inclusive a de Conquista), de colégios, universidades, Cúria Metropolitana, ex Fista, etc.; nenhum deles dispõe de “Promoção agrária”, nem do restante completo da obra do autor.

Sondamos o destino do acervo pessoal de Juvenal Arduini, mas foi mais uma tentativa frustrada com a informação de que livros de sua autoria doados ao seminário São José (Uberaba) foram remanejados para o de Belo Horizonte. Restava a consulta às bibliotecas particulares de dois contemporâneos de Juvenal: seus amigos José Mendonça e Edson Prata, intelectuais que tiveram apreço por livros e pela preservação desse bem cultural. Não estavam mais vivos, mas poderíamos ir até suas filhas, guardiãs do legado dos pais. E assim foi feito. Liana Mendonça nos informou o número da catalogação de “Promoção agrária” no acervo do pai doado para a Universidade de Uberaba. Em visita à biblioteca universitária, recebi a notícia de que o título constava em uma lista de material descartado.

Contando com a parceria de Sérgio Martins, sobrinho de Monsenhor, demos o último passo e chegamos à biblioteca de Dr. Edson, na Rua Pires de Campos, Uberaba. No prédio que a abriga funcionou também o escritório de advocacia do Dr. Edson, e ali funcionam atualmente alguns escritórios de advogados. Fui recebida pelo Dr. Claudiovir Delfino, que me levou à biblioteca e, gentilmente, colaborou na consulta. Passamos pelas estantes, vendo livro por livro; usamos escada para alcançar todos os volumes. Detivemo-nos em alguns, comentamos sobre autores, gêneros, o valor dos livros na formação humanística, negado pela cultura mercantilista. Fizemos referência a seres caros à memória pessoal e coletiva, como Dr. Edson Prata, cujo patrimônio guarda o seu amor pela literatura.

Nossa conversa foi interrompida, quando cheguei ao armário da parte debaixo da última estante. Dr. Claudiovir foi chamado no escritório para atender um cliente. Prossegui. Puxei a porta de madeira antiga com a esperança, agora por um fio, de que pudesse estar ali o tesouro escondido. Afastava um livro do outro, quando deslizou, do meio de publicações robustas, alinhadas verticalmente, um folheto franzino (de 16 centímetros x 11 cm; 17 páginas grampeadas), com o título “Promoção agrária”. A alegria foi grande, e cresceu quando a Lídia nos doou a preciosidade, preservada por 60 anos. Foi esse livreto de edição precária que me fez sentir não a sensação de missão cumprida, mas uma emoção numinosa. Nem chega a ser um livro e guarda aura radiosa por ter resistido ao tempo, sido salvo do desaparecimento e nos ter trazido Juvenal Arduini em espírito, nesse encontro com o ponto de partida humanitário da sua obra.


Vânia Maria Resende
Educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa
 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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