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Uberaba, 24 de outubro de 2021 -

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Vânia Maria Resende

Sortilégio e torniquete

A linguagem simbólica dos sonhos faz revelações tanto arquetípicas quanto de cunho biográfico. O rescaldo de experiências reais, entre elas o cotidiano do trabalho, ressurge em narrativas cifradas. Cabe tudo no simbolismo onírico: medos, compensações, recalques, desejos, visões absurdas, representações fantásticas. Imaginemos o sonho de alguns profissionais no uso de seus instrumentos específicos. O médico faz um corte atrapalhado com o bisturi e naufraga num rio de sangue. A cabeleireira vê no espelho a imagem de um ser assustador, com o penteado horrível que ela fez. O pintor imprime numa casa cores e textura bizarras. A bordadeira entra dentro do lindo desenho surreal que cria. O pedreiro edifica com tijolos exóticos uma obra descomunal que vai até as nuvens. A costureira dá forma na máquina a um vestido estranho. O jogador de futebol corre de uma bola gigante que o persegue no campo. E por aí vai. Já ouvimos histórias de músico que trouxe do sonho bela composição e de cientista que acordou dizendo “eureca”, por ter vislumbrado, sonhando, o segredo de uma grande descoberta.      

O escritor trabalha com a palavra, convive com ela não sem luta, dia e noite, sem sossego. Na sua mente inquieta se originam textos que não nascem ao acaso. Não basta a fluência de ideias; a expressão exige arranjo coeso entre as partes e precisão na forma. No poema “O lutador”, Carlos Drummond define a condição do poeta e sua tensão criadora: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”; e em “Procura da poesia” declara que no reino das palavras é preciso contemplá-las com calma: “Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra”.

Um único livro contém um mundo inteiro. A memória resguarda esse mundo e o repovoa e renova quantas vezes ele for frequentado, mesmo que o seu conteúdo seja informativo, reflexivo. Sob o prisma estético, a trama linguística ficcional tem maior tensão e densidade, é mais provocativa devido às vertentes ambíguas da “obra aberta” (segundo Umberto Eco). A partir dos sentidos inacabados, o leitor segue, no ato criativo de leitura, roteiro inédito na relação com o desconhecido, o inabitual, o nunca visto antes dimensionados pela fantasia. É de se supor alto grau de humanidade da palavra concentrado nos acervos das bibliotecas... Outro espaço surpreendente é o dicionário, repositório de potência da língua contida na reserva enciclopédica de vocábulos e sentidos. Consultá-lo é viagem, sem pista previsível, da curiosidade que pula de um verbete a outro, distraída em associações.

O discurso simbólico dos sonhos tem componentes visuais, mas também verbais. Curioso é quando ganha foco, no sonho, uma palavra específica, como me ocorreu em dois sonhos: um com a palavra sortilégio; outro, com torniquete. Essa talvez fosse portadora de alerta do inconsciente de que a lógica rígida estava me oprimindo ou impedindo a expressão do manancial de magia que a outra palavra (sortilégio) agrega ou sugere. Isto é: encanto, sedução, mistério, feitiço, poder (oculto ou visionário) de predizer o futuro. Torniquete é vazia de fascínio; até sua sonoridade sem leveza é análoga à função de controle, restrição, opressão, arrocho do objeto, assim definido pelo dicionário: “instrumento destinado a apertar, ou a cingir apertando”; “cruz móvel posta horizontalmente à entrada de rua ou estrada, etc., para impedir a passagem de veículos”; “antigo instrumento de tortura inquisitorial”.

Contemplando palavras e lutando com elas no ofício poético, Drummond experimentou o poder velado que guardam: “Certa palavra dorme na sombra/ de um livro raro./ Como desencantá-la?/ É a senha da vida/ a senha do mundo.” (poema “A palavra mágica”). Acordar palavras é acessar o segredo da ambivalência e da duplicidade. Com a chave dos muitos sentidos, decifram-se enigmas e desvendam-se ardis metafóricos, fazendo a passagem do raso ao profundo, do absoluto ao múltiplo, da dissociação à simbiose entre lógica/ absurdo; loucura/sensatez; desejo e imaginação/prenúncio de nova realidade. 

Vânia Maria Resende é educadora, doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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