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Uberaba, 24 de outubro de 2021 -

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Vânia Maria Resende

Foi-se a aranha e ficou o enigma

Durante uns quatro meses ou mais observei diariamente duas aranhas domésticas, destas que aparecem nos tetos. Uma era bem pequena, pálida, quase sem cor; a outra era maior e escura. Machismo à parte, penso que a primeira era fêmea e a segunda, macho. Impossível saber se eram casal, filha e pai, mãe e filho. Nesse tempo, elas moraram no cômodo onde leio, escrevo, mexo em papéis, convivo com meus livros, queimo neurônios filosofando. As aranhas passaram a compor também a teia dos meus questionamentos.

Orientei a faxineira a deixar as duas quietas no seu paradeiro enigmático. Como não proliferaram sujeiras nem novas aranhas, a limpeza estava sob controle. Não as eliminei por desleixo ou esquisitice indicativa de comprometimento mental. Em sã consciência, não tive coragem de expulsá-las ou matá-las, de interferir e destruir o mistério que pairava ali. Afinal, o espaço que ocupavam era insignificante, estavam silenciosas, não representavam perigo. Todo dia eu dava uma olhadinha, para ver se tinha ocorrido alteração de movimento; observava o que se passava entre elas e com cada uma em particular. A menor nunca saiu do lugar e a maior que parecia ser a sua guardiã se manteve ao seu lado quase todo o tempo; em raro deslocamento, ficava por perto, retornava logo à posição que não sei se era de proteger, cortejar ou não abandonar a outra, mesmo se estivesse morta. A longa espera delas de não sei o quê, e a minha, pelo desfecho, me envolveu; fui ficando certa de que a que eu suponha ser fêmea estava morta, de fato.

Se o leitor julga que perde tempo lendo esta história, recomendo-lhe textos literários que exploram com profundidade artística o que é pequeno. No conto “As formigas”, de Lygia Fagundes Telles, transitará por trilha incógnita dos animaizinhos insignificantes. Na poética de Mário Quintana, se deparará com algo belo escondido dentro do feio e residual, no poema “Hai-kai”: “Em meio da ossaria/ Uma caveira piscava-me.../ Havia um vaga-lume dentro dela.” (obra A vaca e o hipogrifo). Talvez veja doçura nesta pobre rãzinha: “Rãzinha verde, tu nem sabes quanto/ foi o bem que eu te quis, ao encontrar-te.../ tu me deste a alegria franciscana/ de não fugires ao sentir meu passo./ Tão linda, tão magrinha, pele e ossos,/ decerto ainda nem comeras nada...” (fragmento do poema “Rãzinha verde”, obra Apontamentos de História sobrenatural).

O olhar sensível e delicado de Cecília Meireles retrata a densidade e o brilho do que, para a visão comum, seria banal e opaco. Em “Elegia a uma pequena borboleta”, a morte do pequeno animal é reveladora da fragilidade da vida: “Choro a tua forma violada,/ miraculosa, alva, divina,/ criatura de pólen, de aragem,/ diáfana pétala da vida!/ Choro ter pesado em teu corpo/ que no estame não pesaria.” (obra Retrato natural). “Comunicação” tematiza a ternura por uma lagartixa: “sobe à minha mesa, descansa, [...] Deixa que te ame, ó alheia, ó esquiva...” (obra Retrato natural). “Canção de outono” retrata a limitada capacidade humana de amar: “Perdoa-me, folha seca,/ não posso cuidar de ti./ Vim para amar neste mundo,/ e até do amor me perdi.[...] E não pude levantá-la!/ Choro pelo que não fiz.” (obra Dispersos).  

A matéria da poética singular de Manoel de Barros, como se lê nos seus versos, são as “soberbas coisas ínfimas”, “o à-toa”, “o em vão”, “o inútil”. Pela comunhão com o chão e com seres da natureza, o poeta atinge grandezas: “Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho, [...]/ Para chegar a Deus./ Formigas me mostraram Ele.” (fragmento do poema “Formigas”, obra Ensaios Fotográficos). Na distinção entre magia poética e informação científica, ele conclui: “quem acumula muita informação perde o condão de/ adivinhar: divinare.// Os sabiás divinam.” (2ª parte, poema 9, obra Livro sobre nada).

As duas aranhas foram discretas, ocuparam espaço mínimo e deixaram vestígio de um enigma indecifrável. Não pretendi desvendá-lo, nem queria resposta lógica para o que se deu entre elas. Portei-me diante do inexplicável com interrogações. O que manteve a aranha paciente meses em torno da outra? Estava à espera de quê? Acordar, curar, ressuscitar, engravidar, velar a que não passou de sombra indelével de um resto mortal na parede? Foi embora porque teve percepção da realidade? Se demorou a constatar a morte, por que o instinto não percebeu logo? Um dia desapareceu e não voltou. Fico com uma última pergunta: se eram casal, foi fiel até após a morte a aranha-macho ou a aranha-fêmea? No mais, a razão filosófica é: só sei que nada sei.           

        

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do JORNAL DA MANHÃ. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva do autor.
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